Aos dezessete anos, engravidei antes de me casar. Não podia deixar a gravidez evoluir. A gravidez acabaria de uma vez com o meu sonho de me tornar uma Auxiliar de Enfermagem. era um sonho pequeno, mas naquele momento era a minha única oportunidade de melhorar de vida. Minha situação era delicada e tentava de tudo para tirar o neném. Uma amiga de curso me aconselhou a tomar um vidro de um remédio muito usado pelas mulheres da época, chamado Regulador Xavier. Mas teria que ser tomado quente e de uma só vez. Assim fiz. Sabia que seria perigoso, porém no desespero em que me encontrava, não hesitei. comprei o remédio, coloquei numa panelinha para que fervesse, esperei esfriar e bebi tudo, como me indicaram. lavei a panelinha (para que minha mãe não notasse nada de diferente na cozinha) e deitei-me para esperar que o remédio fizesse efeito. Meu coração começou a bater acelerado ao mesmo tempo em que ia se tornando mais fraco. Fui ficando sem forças. Quis gritar e não consegui. Todos os meus músculos estavam entorpecidos. Com a respiração difícil e o corpo totalmente paralisado, eu de repente me dei conta que não estava mais na minha casa, mas deitada numa cama de hospital. Parecia ser um hospital antigo. Notei pela cor já um tanto amarelada dos azulejos que recobriam as paredes, e pelo tipo de desenho do piso. Havia dois médicos na sala em que eu estava. Não era uma enfermaria. Se parecia mais com uma sala de cirurgia, pois havia um refletor bem acima da cama onde eu estava. Eu não entendia as palavras que trocavam entre si. Mas sabia que falavam sobre mim. Eles estavam de costas para mim e às vezes um deles se virava para me observar. Eu me sentia cansada. Não sabia onde estava nem conhecia aquele lugar. Queria sentir a presença da minha mãe. Com um pouco de esforço me virei para o outro lado da cama na tentativa de me desligar um pouco da vista dos dois médicos e me assustei de verdade. Esbarrei na parede da sala onde eu dormia! Do lado esquerdo da cama estava tudo como antes. Eu estava na minha cama e na minha casa. Minha mãe costurava como de costume, em frente à janela e ouvia rádio. Bem devagar, fui virando a cabeça para o lado da cama que estava encostada a parede. Continuei a ver a sala do hospital e os médicos que me observavam e continuavam a conversar. Voltei outra vez a cabeça para o lado e minha mãe estava lá. E ela estava até cantando uma música. Alguma coisa estava errada. Se eu realmente estava na minha cama, ali do meu lado direito deveria haver uma parede e jamais uma enfermaria. E é claro que eu só poderia tirar essa dúvida se me chegasse bem para o canto da cama e me encostasse na parede. Com bastante cuidado fui me chegando para o outro lado. Os médicos continuavam a conversar e quase não olhavam para mim. Quando achei que havia espaço para sentir a parede que deveria estar ali, joguei o corpo e o susto foi enorme. A sensação de queda foi tão real que eu quase desmaiei. Olhei para baixo, e vi os pisos do chão do hospital. A cama era alta e se eu caísse com certeza iria me machucar. De repente o meu corpo esbarrou em algo sólido e frio e a cujo contato eu já estava habituada. A parede estava ali para me proteger. Me colei a parede e em pensamentos agradeci à Deus a oportunidade de ainda estar ali. Fechei os olhos e chorei em silêncio. Fiquei assim por um bom tempo. Minha mãe pensava que eu estivesse dormindo e não me incomodou. Ela nunca soube do risco que corri, nem o que eu havia feito. E eu nunca entendi direito, o que realmente aconteceu comigo naquele dia. A vida do meu bebê foi preservada e eu tive uma menina linda e saudável que apesar das dificuldades me deu muita alegria.
Seja bem-vindo (a) ao meu blog e obrigada pela visita. Aqui você vai poder conhecer um pouco mais sobre mim e sobre os meus pequenos passos nesta vida tão cheia de casualidades. Também poderá gostar de alguns dos contos e comentários que escrevo, pois adoro escrever! Ah! Não se esqueça de deixar um comentário. Beijos e boa sorte!!!
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Incesto
Meu nome é Mary Jane e o que vou contar faz parte do meu passado já um tanto distante. Éramos nove pessoas. Eu e minha irmã Esther, as quatro crianças e dois rapazes que se agregaram a nossa família. Morávamos numa fazenda nos Estados Unidos. Eu estava com vinte e dois anos e Esther (minha irmã) com vinte e quatro, porém aparentávamos bem mais idade. As quatro crianças a que me referi eram nossos filhos e o pai delas era o nosso próprio pai, um homem frio e violento que também era o dono da fazenda. Ele era filho de imigrantes espanhóis e vivia na América do Norte desde criança. Era um homem moreno, alto, forte e tinha uma barriga volumosa. Falava pouco e quando se dirigia a uma de nós era sempre aos berros. Seu sorriso era sempre um mau presságio. Sabíamos que quando sorria, com certeza tinha alguma coisa em mente.
O menino mais novo Juan, tinha quase três anos e a menina mais velha, Janice já estava com doze anos. Uma das meninas, Carla, tinha seis anos e a outra, Joyce estava com sete. Eu e Esther éramos muito ligadas. O sofrimento nos unira e não fazíamos diferenças entre os nossos filhos que eram também nossos irmãos.
Nós éramos amantes do nosso pai desde a nossa adolescência. Ou melhor: desde que a nossa mãe morrera. Eu estava então com doze anos e a minha irmã com catorze. Desde então ele se apossara da nossa vida e além de nos violentar, nos proibia de sair. Não tínhamos permissão nem mesmo para ir á Igreja. Com a morte de nossa mãe e as grosserias do nosso pai as pessoas do lugar se afastaram e nós e passamos a viver completamente isoladas.
Pela força e através de ameaças ele havia nos tornado suas amantes e tanto eu como minha irmã nos tornamos reféns de seus instintos. Sem nenhuma experiência eu ajudei no parto de Esther. Ele ficou do lado de fora do quarto e gritava me dizendo tudo o que eu devia fazer.
—Sua mãe teve vocês duas sozinha em casa e eu ajudei. Sei muito bem com se tira uma criança de dentro de uma mulher!
Quando, meses depois chegou a minha vez, Esther me ajudou.
As crianças nasceram e estavam crescendo sem nenhum convívio com outras pessoas. Sofríamos toda espécie de abusos e éramos espancadas por qualquer motivo. As crianças sentiam medo dele e viviam a maior parte do tempo escondidas dentro do quarto.
Para melhor protegê-los nós duas ocupávamos o mesmo quarto no andar de cima e dormíamos todos juntos. Quando as crianças indagavam o porquê de não sairmos, eu dizia para elas que a nossa casa “era um grande armário de guardar pessoas”.
Janice estava ficando mocinha e por duas ou três vezes, eu o peguei olhando para ela com maldade. Numa dessas vezes ele chegou a segurar a mão dela entre as suas enquanto exibia o mesmo sorriso sórdido que costumava nos “ofertar” quando desejava uma de nós. Nenhum de nós o chamava de pai ou de avô. Ele preferia que o chamássemos pelo nome e era assim que nos referíamos a ele: Sr. Gonzalez.
Há tempos apareceram por aqui dois rapazes, que diziam precisar de ajuda. Eram jovens e o Sr. Gonzalez logo imaginou que talvez estivessem fugindo da polícia. Então, se aproveitando da situação dos dois, lhes ofereceu emprego em troca de casa e comida. Eles aceitaram e ajudavam no serviço. John cuidava do pasto e Neil ajudava nos trabalhos mais pesados dentro da casa. Eles eram tratados da mesma maneira que nós. Não tinham nenhuma regalia e eram constantemente humilhados. Ainda assim eles eram como cães de guarda e obedeciam cegamente ao Sr. Gonzalez. Com o tempo nos tornamos amigos. Eles acompanharam as nossas duas últimas gravidez e não fizeram nenhuma pergunta. Sabiam perfeitamente quem era o pai daquelas crianças. Neil ajudou Esther durante o parto do menino. Era prestativo e não fazia comentários sobre o que via.
Com eles por perto, nós nos sentíamos um pouco mais protegidas. Era uma proteção imaginária já que tanto eles como nós morríamos de medo do Sr. Gonzalez.
Agora que Janice estava se tornando uma mocinha, tudo estava querendo se repetir e nós não iríamos permitir. Então resolvemos fugir. Mas fugir era algo quase impensável. E para onde fugiríamos? Resolvemos nos arriscar a pedir ajuda aos rapazes. Achávamos que não aceitariam nos ajudar, já que, apesar de tudo, tinham o Sr. Gonzalez como seu protetor. Ainda assim resolvemos tentar. Eu fiquei encarregada de falar com Neil e Esther de falar com John. Para nosso espanto eles não só concordaram, como resolveram que iriam conosco. Disseram que também estavam cansados daquela vida.
Combinamos que Neil ficaria incumbido de preparar a carroça e deixar num ponto da cerca onde o acesso fosse fácil tanto para nós quanto para as crianças. Enquanto isso, John ficaria com o Sr. Gonzalez dentro da casa para distraí-lo e assim que todos estivessem na carroça ele viria ao nosso encontro.
Com o coração aos pulos arrumamos os nossos poucos pertences e os amarramos dentro de algumas colchas e lençóis. Precisávamos fazer tudo com muita discrição para não levantar nenhuma suspeita. Nos arrastávamos como sombra pela casa sempre vigiando para ver se ele (o Sr. Gonzáles) estava por perto e só quando não o víamos é que passávamos com algum volume.
Quando tudo estava pronto demos o sinal para Neil. Escolhemos partir antes do sol nascer. Minha irmã Esther e John levaram as trouxas e colocaram tudo na carroça. Eu fiquei encarregada de acalmar as crianças para impedir que elas fizessem barulho. O menino menor, Juan estava sonolento não entendia direito porque sair da cama se ainda não estava dia claro. Queria saber do sol. Fiquei com ele no colo cochichando coisas boas para que ele entendesse que precisava ficar em silêncio. Por fim minha irmã e Neil chegaram para ajudar a levar as crianças. Pulamos a janela da cozinha e saímos rápida e silenciosamente. Nos acomodamos na carroça olhando ansiosamente em direção a casa para ver se Neil já estava vindo. Eu estava apavorada. E se alguma coisa desse errado? De repente avistamos o Neil. Finalmente ele vinha ao nosso encontro. Estranhei a sua calma. Ele estava andando muito devagar e ficamos preocupados. Os cavalos estavam um pouco inquietos e eu temia que começassem a relinchar e o Sr. Gonzalez ouvisse. Neil se aproximou e disse que havia mudado de idéia. Não iria mais partir conosco. Ficamos sem entender. Porque essa decisão? E por que só agora?
Então calmamente ele nos explicou que seus planos haviam mudado devido a uma obra da natureza. Falou que há três dias o Sr. Gonzalez havia sofrido um derrame cerebral durante a noite. Neil o havia socorrido e ajudado durante esse processo, mas ele não queria que Neil nos contasse. Queria primeiro se acostumar com a idéia. Estava cego das duas vistas e com um dos lado do corpo paralizado. Prometeu a Neil que se cuidasse dele direitinho, teria como premio uma parte na fazenda quando ele morresse.
Enquanto Neil falava, nós olhávamos uns para os outros tentando entender. De repente as coisas se tornaram claras. Naqueles últimos dias, nós estávamos tão preocupados com a nossa fuga que nem notamos até agradecemos pela mudança de comportamento do Sr. Gonzalez. Ele estava sempre no quarto e chamando por Neil. Nos lembramos que há dois dias o Sr. Gonzalez não caminhava pela casa e isso foi primordial para que o nosso plano desse certo.
Depois dessa informação sobre o seu estado de saúde, continuamos a nos olhar sem querer acreditar.
Ficamos por um tempo ali parados vendo a nossa fuga se desvanecer. Se o Sr. Gonzalez estava realmente cego e
precisando de alguém para cuidar dele era sinal de que as coisas haviam mudado e que talvez ele já não oferecesse perigo para nós.
Por um momento meus olhos se encheram de lágrimas e apertei o meu filho Juan contra o peito. Janice me olhou como se indagasse: “E então? Vamos ou não vamos fugir?” Ester, apesar de ser a mais velha sempre esperava de mim a última resposta. Estava com a cabeça baixa e percebi que também chorava.
Neil compreendeu a nossa indecisão e disse que era para pensarmos bem. Se afastou dali nos desejando boa sorte fosse qual fosse a decisão que tomássemos.
O sol começava a despontar e os seus fracos raios iluminavam uma manhã diferente. Sentada na carroça e já sem nenhuma pressa eu procurava organizar as idéias.
Durante tantos anos nós sonháramos com uma fuga que seria para nós a libertação do jugo que o Sr. Gonzalez havia nos imposto e de repente essa liberdade estava ali à nossa frente. Viera até nós como um desígnio dos céus. Um misto de alegria e de tristeza tomou conta de mim. Olhei para Esther e sorri. Estava ali a nossa chance de voltarmos a ser uma família. Acho que ela entendeu o meu pensamento porque sorriu também. John nos olhava de soslaio. Talvez ainda esperasse pela ordem de partida, mas ao ver a nossa cara de contentamento, tratou de nos ajudar a descer. Sabia que íamos voltar para casa. As crianças estavam sem entender e tanto eu como Esther tentávamos passar para eles o nosso estado de espírito atual que era de alegria e total confiança no futuro. Aos pouco fomos levando nossas tralhas para dentro de casa. Com a doença do Sr. Gonzalez as crianças poderiam dali por diante, circular pela casa sem medo. O dia nos encontrou com o coração ardendo de fé na vida e em nós mesmos.
Neil nos recebeu com alegria. Ele e John nunca haviam se separado e ele estava feliz pela decisão que havíamos tomado.
John foi o primeiro a falar e o fez de uma maneira soberba:
— Felizes pelo dia de hoje e quem sabe? Feliz para todo o sempre?
Todos sorrimos. As crianças estavam pela primeira vez na vida fazendo algazarra e preenchendo a casa com suas vozes. Nossa mãe, com certeza se estivesse conosco estaria feliz.
Ganho de Causa
A imprensa estava toda à postos. O grande homem público Richard Novaes estava depondo e assim que o seu depoimento terminasse, ele sairia e todos (inclusive eu) queriam ter o privilégio de ouvir de sua boca alguma declaração, além de tirar algumas fotografias. A criança (que era o pivô daquela história) estava presente e bem protegida das vistas dos curiosos ao lado dos seus pais biológicos e certamente guardada por algum Conselheiro. Tutelar. Também estavam ali o advogado de defesa dos pais do menino e aquele era o depoimento mais importante e mais esperado daquele caso. Depois que Richard fosse ouvido o processo ganharia outro rumo. Dizia-se à boca pequena que o juiz estava propenso a lhe conceder terminantemente a guarda do menino. No entanto, havia ainda a possibilidade (mesmo que remota) da criança ser entregue de uma vez por todas aos pais.
O caso de Richard se tornara público quando o pai do menino fez uma denúncia contra o ele, o ilustre Promotor Richard Novaes. Contou que trabalhava como porteiro no edifício onde Richard residia e que o mesmo costumava puxar conversa com ele do tipo: “Tudo bem com o senhor? E a família?” Nesses momentos ele se sentindo importante em ser notado por um homem tão importante, resumia em poucas palavras a situação em casa. Falava sobre a mulher e até lhe contava sobre as pequenas desavenças que tinham de vez em quando. A mulher estava grávida e o seu temperamento mudava com muita facilidade. Quando o seu filho nasceu ele comentou com o Promotor. Fez questão de enfatizar a cor branca do filho e os cabelos loiros que o menino herdara da mãe. Por ser de origem negra e de pele escura, o fato do filho ter nascido branco era para ele algo com que falava com orgulho. Ficou surpreso quando o Promotor lhe disse que gostaria de ver o seu filho e muito mais surpreso ainda quando Richard se ofereceu para ser o padrinho da criança. Depois de conversar com a mulher, Romualdo aceitou a oferta e dali em diante o Promotor passou a dar as cartas na vida dele, na vida da sua esposa e também na vida do menino. Dizia a eles tudo o que fazer no que se referia a criança. Até mesmo o nome do menino foi ele quem escolheu. Aliás “sugeriu” que o menino deveria se chamar Ricardo, que era a versão em português de Richard. Romualdo já havia escolhido para o filho o nome de Ernesto (que era o nome do seu falecido pai) mas achou que não seria bom contrariar o Promotor e concordou. O batizado de Ricardo foi numa manhã de domingo na igreja mais chique do bairro. O padrinho chegou num carro importado e fez questão que a cerimônia se desenrolasse o mais rápido possível, pois tinha um compromisso de última hora. Apesar de tudo, a mãe do menino estava feliz. Se sentia importante por ter como “compadre” um homem como o Promotor Richard. As opiniões e orientações e interações de Richard na vida do casal se tornaram tão freqüentes que aos pouco o jogo mudou e era ele, o Promotor, quem dava as ordens: “Não! Não façam isso! Isso não é bom para o menino”, ou então: “Sim, sim, isso é bom para a criança, etc.
Richard vivia sozinho. Não tinha filhos, estava separado da esposa e apenas os criados lhe faziam companhia. Em geral seus empregados eram diaristas ou temporários. Richard não gostava de se prender a ninguém. Assim podia curtir com mais prazer a sua liberdade.
Para que o menino pudesse passar dias em sua casa o Promotor contratou uma babá. A visita do menino acontecia com freqüência e sempre com o consentimento dos pais. Quando retornava para a casa de origem o menino ia coberto de brinquedos. Além de tudo o Promotor “sutilmente” ofertava ao pai uma pequena ajuda em dinheiro: “È para que não falte nada ao Ricardo.” Para Romualdo não se sentir constrangido Richard passou a pedir que Romualdo assinasse vez por outra uma promissória com a quantia que estava doando. Procurava deixar claro que isso era apenas uma pequena formalidade e que as promissórias jamais seriam cobradas.“É para o compadre se sentir melhor...” e enfatizava: “Com dinheiro a gente não deve brincar!”
Quando o menino completou três anos o padrinho pediu ao pai para deixar a criança passar uns dias com ele numa casa de veraneio que possuía, e o casal mesmo sem saber onde ficava essa tal casa, mais uma vez concordou. No dia combinado o motorista pegou a criança cedo como de costume. Segundo ele o Promotor não pudera vir por estar numa reunião. Era uma quinta feira, véspera de um feriadão e o menino só retornaria no domingo. Os pais se despediram do menino sem saber que nunca mais veriam seu filho. No prédio, Romualdo trabalhava tranqüilo. Várias famílias haviam viajado e tudo estava na mais perfeita paz, até que um dos vizinhos ao passar por ele, perguntou: “O senhor por acaso sabe para onde o seu compadre, o Promotor Richard se mudou?” Romualdo pensou não ter ouvido direito e pediu ao vizinho que repetisse a pergunta. Só então se deu conta do peso daquela informação. Sentiu um começo de pânico, mas pensou: “Calma Romualdo. Se o Compadre se mudou com certeza vai entrar em contato com você para lhe informar. Quem sabe até já entrou em contato com Maria?”
O dia se tornou pesado e difícil de passar. Ao chegar em casa Romualdo esperou que Maria lhe desse a notícia que confirmaria a sua idéia inicial. Porém o tempo passava e nada. Maria falava sobre tudo, menos sobre a mudança do compadre. Romualdo resolveu continuar em silêncio. Não queria preocupar a mulher e estava cansado. “Quem sabe amanhã ele não entra em contato com a gente e tudo se esclarece?” Dormiu um sono inquieto com muitas voltas na cama e idas à geladeira. Estava ansioso e mal se continha em esperar o novo dia chegar. O dia chegou e a noite também sem que ele tivesse notícias do Promotor. Só restava aguardar o domingo. E Romualdo, apesar da insegurança e do mau presságio, aguardou. No domingo tomou o café da manhã ouvindo os planos da mulher em relação a chegada de Ricardo. “Sabe que ele vai vir cheio de histórias pra contar, né?” Romualdo saiu sem responder. Precisava trabalhar. No prédio alguns dos vizinhos já haviam retornado e quando passavam por ele sempre diziam algo sobre a mudança inesperada do Promotor. Romualdo sorria engasgado. Estava com um enorme nó na garganta e se esforçava para ser gentil com todos. Deixou o emprego no horário costumeiro e se dirigiu para casa a passos lentos. Se as coisas fossem do jeito que ele estava pensando, estaria enrascado. Como contar a Maria? Tentou se manter calmo e ao chegar em casa, fingindo despreocupação foi logo dizendo: “Cadê o moleque do papai?” Maria respondeu em tom apreensivo: “Pois é homem. Até agora não chegaram. Será que aconteceu alguma coisa. Algum acidente na estrada ou coisa parecida? E você? Lá no prédio ninguém falou nada?”
Romualdo procurou ajuda nos braços do sofá. Afundou a cabeça nos ombros e começou a chorar. Maria não entendia, ou melhor, não queria entender. Começou a gritar com Romualdo: “O que aconteceu com nosso filho? Fala homem pelo amor de Deus? Ele morreu? È isso que você não quer me contar? Fala!”
Maria gritava e batia em Romualdo. Estava totalmente descontrolada. Romualdo precisou usar a força para que ela lhe ouvisse. Com a voz embargada ele lhe contou sobre a mudança do compadre e a desconfiança que tinha de que não veriam mais o menino. Maria não queria ouvir. “Não! Não! Isso não era possível! Ninguém ia fazer isso com o seu menino! Ninguém!”
A partir daí a vida deles mudou radicalmente. De tanto importunar os vizinhos do Promotor no prédio em que trabalhava, e de faltar ao trabalho com desculpa de estar procurando o filho, Romualdo foi demitido. Maria por sua vez tentava obter ajuda na Associação de Moradores do bairro em que morava, porém poucos queriam ouvir sua história. Muitas vezes ao invés de consolo ela ouvia recriminações: “Quem mandou dar o filho pra rico batizar? Agora agüente. Pensa que vai se dá bem e se ferra. É bem feito!”
Romualdo sem trabalho e sem noção de direitos vagava sem rumo ora aqui, ora acolá em busca de alguém que lhe dissesse o que fazer. Um dia numa fila em busca de emprego conheceu um rapaz que era irmão de um redator de um desses jornalecos populares. O rapaz lhe orientou no sentido de procurar o Conselho Tutelar da região onde morava, mas Romualdo tinha medo. “Como procurar a justiça para falar contra um dos seus membros tão importante? E dizer que o menino havia saído de casa com o seu consentimento?”
Preferiu uma segunda opção que era contar a sua história diretamente ao redator do jornal. Caso ele se interessasse, a notícia se espalharia e talvez assim Romualdo tivesse algum retorno. Deu a Romualdo um cartão com o nome e o telefone do escritório do irmão e depois de dois dias de indecisão Romualdo resolveu procurar o mesmo. O rapaz era novo na profissão e se sensibilizou com o sofrimento de Romualdo. Sabia perfeitamente a pressão que teria de agüentar se resolvesse ajudar aquele homem e publicar sua história. No entanto, seu lado solidário falou mais alto e ele se tornou o alicerce de Romualdo na busca que fazia para descobrir o paradeiro do seu filho. A notícia logo tomou vulto e todos os jornais falavam sobre o caso que achavam escabroso. Romualdo foi tachado de louco, oportunista e caluniador. Recebeu ameaças diversas, mas insistia em contar a sua versão da história. Para piorar a situação soube que o promotor Richard Novaes estava fora do país e não se tinha notícias dele. Poucos meses depois o caso já havia caído no esquecimento. A busca de Romualdo durou cerca de dois anos. De repente tudo voltou à tona. Através de uma denúncia anônima o paradeiro do Promotor foi descoberto. Ele não estava fora do país, mas residindo numa pequena ilha no nordeste, afastado de tudo e de todos. A denúncia pôs lenha na fogueira e o caso se reacendeu. Richard foi encontrado e intimado a depor. Se dizia inocente e não se negou a prestar depoimento. Tinha (segundo dizia) em suas mãos um documento com a assinatura de Romualdo permitindo que Ricardo vivesse em companhia do padrinho por tempo indeterminado. Documento esse que foi anexado ao processo e que seria ferozmente analisado por peritos para que fosse atestada a sua autenticidade. A versão de Romualdo sobre o caso era tênue demais comparada com as provas apresentadas por Richard. A justiça foi rápida e enquanto esperava-se pelo veredicto final, a criança foi devolvida ao convívio dos pais. Infelizmente Romualdo não conseguia êxito na sua defesa. A Justiça e a mídia os tachavam (tanto ele como a esposa) de monstros oportunistas. Tudo o que dizia se voltava contra ele e sua esposa. “Como puderam permitir que o filho fosse usado em causa própria?” Richard estava radiante. De réu passara a vítima e ainda podia requerer a posse da criança. Foi então que ele entrou com uma ação onde pedia ao Juiz para adotar o menino, afinal, preenchia todos os requisitos necessários.
Enquanto isso Ricardo e os pais tentavam da melhor maneira possível conviver em harmonia. O menino, já com cinco anos e acostumado a ter tudo do bom e do melhor não se adaptou a vida que os pais levavam. Segundo ele a casa em que moravam era pequena e feia e a vida ao lado dos seus pais era ruim. Queria ter o pai Richard de volta. Enquanto a papelada rolava na justiça. Richard (por ser um grande conhecedor da lei e dos seus meandros) se armava de todos os recursos para ter o seu pedido de adoção aceito pelo Juiz. Nas declarações que dava à imprensa sempre enfatizava o sofrimento pelo qual a criança estava passando e continuava afirmando ser verdadeiro o documento de posse assinado por Romualdo. Entre provas e contra-provas o julgamento estava chegando ao fim e nós, repórteres ávidos por notícias, ali estávamos à espera de uma solução para o caso, solução essa que provavelmente estava preste a acontecer. Enfim o Promotor saiu. Usava como sempre o seu sobretudo estilo inglês e andava com passos firmes e seguros. Enquanto os repórteres se aglomeravam tentando obter o melhor ângulo para um clipe e esticavam desajeitadamente as mãos com os seus respectivos microfones para captar alguma declaração, ele se virou, deu alguns passos em direção a criança, pegou o menino pela mão e saiu em grande estilo enquanto acenava para a imprensa. Como declaração disse apenas:
—Esta era uma causa ganha!
O menino ao se sentir seguro pela mão do Promotor, abriu um largo e radiante sorriso de contentamento e seguiu ao seu lado. Assim como o seu pai quase adotivo, olhava para os repórteres com um semblante de total felicidade. Do outro lado e bem afastados estavam os pais biológicos de Ricardo acompanhados por um Conselheiro e pelo Advogado de Defesa de ambos. No olhar da mãe a dor e a desesperança de quem acaba de perder um tesouro. Com um terno e forte abraço Romualdo tentava ampará-la enquanto seguiam para o carro que deveria ser do advogado e que com certeza os levaria de volta para casa.
Tudo parecia estar terminado, no entanto o meu olhar atento havia captado algo no sorriso daquele menino que talvez tenha passado desapercebido aos meus colegas. Ele já era presa do Promotor por seu próprio consentimento e nada do que dissessem ou fizessem mudaria esse quadro.
Isto, num tempo de guerras e caos era algo para ser pensado. Até onde aquele homem influenciara aquele menino e quais seriam os seus motivos reais naquela relação? Ele era um homem quase quarentão e a pedofilia andava muito em voga. Era mais uma questão que ficaria sem resposta. O homem rico e poderoso que se apossa de uma criança inocente e “compra” o seu afeto com brinquedos e bens de consumo. É provável que se os verdadeiros pais ganhassem esta causa teriam ao seu lado, não um filho, mas um quase inimigo que na primeira oportunidade iria ao encontro daquele homem que o havia seduzido.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Eleições à parte... (e pela parte que me toca).
O Brasil envelhece a cada dia, mas pouca coisa muda de verdade nesta terra idolatrada. Desde criança ouço falar de políticos corruptos, de fraudes na previdência, outras tantas mazelas que infestam o nosso território. Mudam-se capitais, mudam-se as sedes do Governo, mudam-se os sistemas governamentais e o sistema monetário, mudam-se as leis e os seus códigos, mas nada disso consegue por fim aos desmandos dos governantes e seus subordinados que invariavelmente, colocam a população em situação de total abandono. Bem, chegamos a era “Lula” e estamos passando por uma nova fase onde o Brasil faz alarde para o seu inegável crescimento onde o pré-sal é parte importante. Os PACs e outros programas sociais tem feito a nossa sofrida população sonhar com um Brasil emergente e igualitário, mas será mesmo verdade que isto vai acontecer? Assistindo as campanhas eleitorais dos dois candidatos a presidência da república, onde a mentira, a falsidade e a hipocrisia graça por todos os lados, fica difícil acreditar numa mudança para melhor. E hoje faltando apenas dois dias para a eleição ainda encontro pessoas indecisas e desmotivadas devido o baixo nível em que a campanha foi apresentada povo. O duelo de difamações entre o candidato tucano e candidata do PT, vai ficar na história como uma das mais péssimas campanhas já presenciada pelo povo brasileiro. Entre tantas demandas e falta de decoro, fiquei com a impressão e porque não dizer a quase certeza de que a candidata do PV, Marina da Silva seria a única candidata ecologicamente correta. Fazer o quê? Votar em quem, mesmo? Na candidata protegida do presidente, ou no seu opositor? Em qual dos dois eu posso confiar? E depois das eleições quando o novo (a) presidente assumir, será que o caos da saúde acabará? E a segurança? Será que enfim vou me sentir segura? E quanto a educação de qualidade para os filhos do pobre? Será que se tornará realidade? Bem. O tempo nos dirá. E, pela parte que me toca, decidi não tomar parte. É isso. Esse ano pela primeira vez vou votar em branco e aguardar o resultado pela TV. Que a boa sorte acompanhe o nosso povo e que tenhamos um (a) presidente verdadeiramente comprometido com o Brasil! Espero que o meu desejo não se transforme em utopia, afinal o Brasil que sobrevive longe da orla também merece ser feliz.
sábado, 23 de outubro de 2010
A Briga dos Meus Pais_Quando o Racismo Começa em Casa
Tinha pouco mais de dois anos de idade. Era tarde da noite e não me recordo muito bem como foi que despertei. De repente me vi nos braços da minha mãe que corria em direção ao portão. Dentro de casa, o meu pai esbravejava e tomado de uma fúria que eu ainda não conhecia, atirava objetos como garrafas, pratos, copos e mais algumas tralhas na direção em que eu e minha mãe nos encontrávamos. Minha mãe, apesar do peso que carregava, esgueirava-se, ora daqui, ora dali (a escuridão a protegia) e ainda encontrava forças para atiçar ainda mais a raiva do meu pai, gritando:
—Joga mais para a direita! Essa não acertou! Agora passou raspando!...
Eu extremamente assustada com o que via chorava e pedia para que minha mãe me colocasse no chão. Nos meus dois anos e meio de idade, não entendia o que estava acontecendo e queria a todo o custo fugir dali. Minha mãe precisou me bater para que eu parasse de me mexer. Vi quando meu pai, tresloucado, pôs fogo numa pilha de pertences da minha mãe bem no meio da sala. O fogo cresceu rápido e eu senti mais medo ainda, pois meu pai estava dentro da casa. Fumaça e fagulhas começaram a sair por entre as telhas, e eu vi o rosto da minha mãe se transfigurar. O riso e o sarcasmo deram lugar ao desespero e ela começou a gritar desesperadamente:
—Socorro! Socorro! O homem está maluco! Está pondo fogo na casa!
O desespero no rosto da minha mãe denotava perigo. Eu me abraçava a ela e tentava esconder o rosto nos seus ombros. Não queria ver os seus olhos amedrontados. Ouvi as sirenes do carro dos bombeiros que os vizinhos haviam chamado. Vi quando eles entraram e trouxeram meu pai que estava em prantos. Aos pouco eles dominaram o incêndio e se foram. Vizinhos e curiosos se dispersaram. Eu ainda me lembro de quando entramos na casa. Os cacos e entulhos molhados e queimados jaziam na sala. Eu me dei conta de que várias fotografias, que de alguma maneira, representavam o passado de minha mãe e que antes enfeitavam o vidro da cristaleira haviam desaparecido no incêndio. Inclusive a foto do menino de cabelos loiros que a minha mãe dizia ser um dos seus filhos, já falecido. Depois fomos todos até a delegacia que por sorte ficava perto da nossa casa (aliás, passamos lá quase toda a noite). Eu dormia e acordava deitada num banco duro da delegacia, com a cabeça no colo da minha mãe. Meu pai ao que parece, prestava depoimento numa sala ao lado. O telefone preto preso à parede chamava a minha atenção e fazia com que por algumas vezes, me esquecesse do incidente. No entanto ao ouvir os gritos do delegado, e a voz surda e oprimida do meu pai, me dava conta de que o pesadelo ainda não havia terminado. O tempo passou sem que eu percebesse e logo era manhã e estávamos em casa. Só depois de alguns anos e de muitas indagações pude entender a causa daquele gesto insano do meu pai. Tudo aconteceu devido ao seu ciúme. Meu pai nunca aceitou o fato da minha mãe ter tido outro companheiro antes dele. Para piorar a situação ela trazia consigo fotos dos filhos que haviam morrido e nos momentos de discussão, gostava de atiçar o meu pai fazendo comparações entre ele que era de cor preta e o outro que era branco e Argentino e ainda se punha a reclamar da minha cor. A filha que havia puxado ao pai em tudo, até na cor! E se lamentava sempre com essas palavras:
—Meus filhos brancos Deus levou e deixou essa daí para pagar a minha língua!
Isso deixava meu pai irritado, pois minha mãe era mulata clara, quase branca e nunca disse a ele que não gostava de pretos. Só depois que eu nasci é que isso veio à tona. Sem outros argumentos ele se enfurecia e naquela noite exagerou. As brigas e discussões continuaram e agora com um agravante: não havia mais as fotos dos filhos brancos que eram o orgulho da minha mãe e ao mesmo tempo um motivo de vergonha para o meu pai. Cresci assim, discriminada dentro de casa pela minha própria mãe. O preconceito que sofri na rua doeu bem menos e me ajudou a crescer. Como águas passadas não movem moinhos, continuei minha vida e apesar das derrotas consegui ser feliz. Tive as mãos atadas pelo preconceito e pela discriminação, mas sobrevivi e hoje já não me importo quando uma ou outra pessoa tenta me diminuir por causa da minha cor, da minha idade ou da minha classe social. Sei que isso é parte da nossa cultura e tiro de letra sem me aborrecer ou me sentir ofendida. Tenho sempre em mente um provérbio que aprendi quando em criança: “Os cães ladram e caravana passa...” E vou em frente. Beijos a todos.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
De irmandade e de irmãos
Nasci em Salvador, no Estado da Bahia nos idos anos de1948. Passei
os meus primeiros anos de vida me dividindo entre os bairros da Cidade Nova,
Pau Miúdo, Pero Vaz e mais tarde Cosme de Farias. Cresci entre meninos e
meninas que brincavam de pique (picula) pelas ruas empoeiradas e se banhavam despidos,
sem culpas e sem maldade nas fontes, nos chafarizes e bicas das redondezas muitas vezes
até os onze anos de idade ou até que a puberdade apontasse. Entre deveres e
obrigações se destacava o respeito e a obediência aos mais velhos, não importando
a idade do mesmo. Se uma menina se casasse aos treze anos (por exemplo), já era
considerada uma senhora e nós, os menores, lhe devíamos respeito e obediência
tanto quanto aos velhinhos de cabeça branca.
Naquele tempo pude
conhecer e conviver com vários tipos de “irmãos”.
Havia os irmãos de sangue – filhos do mesmo pai e da mesma
mãe; os irmãos da parte do pai – filhos de mães diferentes, mas com um mesmo
pai; os irmãos por parte de mãe – filhos de uma mesma mãe, mas com pais diferentes;
os irmãos de criação – crianças que eram criadas por famílias diferentes da
sua, mas que eram tratados como filhos; os irmãos de leite (ou de aleitamento)
crianças que eram amamentadas por outra mulher e que eram consideradas por elas
como seus filhos e os irmãos de consideração que era uma forma de amizade muito
forte entre duas crianças sem nenhum parentesco. Esses vínculos normalmente
perduravam por toda a vida e muitas vezes vi pessoas idosas se referindo com
carinho aos seus irmãos sendo eles de sangue ou não. O que mais achava estranho
era quando uma dessas pessoas me apresentava um outro idoso como sendo o seu
irmão caçula. Ficava me perguntando: Como poderia ser o caçula se já era velho?
Aos dez anos fui trazida para o Rio de Janeiro e encontrei uma cidade um pouco diferente
da minha terra natal. No entanto, apesar do progresso e das novidades, os
costumes das pessoas eram parecidos. O respeito aos idosos e todos os valores morais eram defendidos
pela grande maioria da população. Mas os costumes foram se modificando e sem
que a gente se desse conta, a “modernidade”, o “estrangeirismo” e a televisão tomou
conta de tudo. Abraçou-se o que era moda em outros países num prenúncio da
Globalização. O casamento aos pouco foi se modificando e a família, ou melhor: o
conceito de família foi adulterado se tornando um conceito vago de união e convivência
(ou será conveniência?) entre pessoas. O conceito de irmandade sofreu uma
brusca mudança e hoje, irmãos e irmãs muitas vezes se transformam em estranhos
- ainda que sejam irmãos de sangue! Não posso deixar de lamentar a perda desses
valores. Alguns dizem que foi bom e que isso torna as pessoas mais livres, mais
conscientes e mais independentes. Pela parte que me toca e por tudo que vivi até
aqui, posso afirmar que antigamente era muito melhor! Saudosista? Quem? Eu? Jamais!
A Internet que o diga! Sou só mais uma, na multidão de envelhecentes que assola
o país tentando viver e entender a vida como ela é.
domingo, 29 de agosto de 2010
HD, HDTV, Full HD e HDMI. Êta coisinhas difíceis, sô!!!
É. Mais uma vez me vi às voltas com as mudanças tecnológicas. Digo mais uma vez, porque nesta minha vida desprovida de recursos financeiros, por mais que eu tente me atualizar sobre as maravilhas criadas pela tecnologia e que inundam as prateleiras das lojas de eletroeletrônicos, acabo sempre esbarrando em termos estranhos e tão distantes da língua pátria que terminam por confundir o meu cérebro. Haja vista que palavras como HD, HDTV e Full HD (entre outras), apesar estarem na boca dos locutores que nos bombardeiam com anúncios na televisão, não fazem parte dos dicionários convencionais e como não podia deixar de ser surgem com fonte de especulação para a grande maioria dos mortais comuns. E eu, que faço parte da “plebe rude” não poderia fugir à regra. O antigo HD (hard disc) e HDTV (high-definition television) (sistema de transmissão televisiva com uma resolução de tela significativamente superior à dos formatos tradicionais), já eram meus conhecidos e apesar de ter às mãos um instrumento magnífico, ou seja: um computador plugado e ligado á Internet, me achei no direito de especular sobre o termo HDTV. A minha especulação me levou à seguinte conclusão: sabendo que HD (Hard Disc) é um disco rígido onde se grava dados, e supondo que Full fosse o mesmo que Fast, ou seja rápido, acreditei que um aparelho de TV com Full Hd viria equipado de um gravador interno para que pudéssemos gravar programas de TV de um modo rápido sem dar direito à gravação em mídia... e pensando assim, me dirigi a uma grande lojas de eletrodoméstico em busca de um aparelho que fosse Full Hd. Queria um aparelho pequeno para por no quarto, já que o espaço é limitado. Depois de pesquisar preços em mais umas duas ou três lojas me decidi por um da Sansung de 22 polegadas. Pelo mesmo preço , numa outra loja eu compraria uma TV de 26 polegadas sem Full HD, mas eu não quis. Resultado: ao chegar em casa e ligar o aparelho não encontrei nada sobre gravação. No controle remoto não havia a tecla “Rec” e eu me desesperei!!! A vendedora havia me enganado! Aquele aparelho de TV não servia para gravar absolutamente nada!!! Não era Full HD! Queria voltar à loja e exigir da vendedora uma troca, afinal eu fora enganada.O meu bom senso começou a me alertar que alguma coisa poderia estar errada. Voltei ao manual, examinei novamente a nota fiscal e nas especificações do aparelho dizia que era mesmo Full HD. Sem me dar por vencida e ainda duvidando da vendedora, resolvi ligar para o meu primo que é expert em tudo que diz respeito a eletrônica e a informática e para a minha surpresa, fui informada sobre o real significado do termo e o que é Full HD (Full High Definition) Alta definição máxima. É a resolução máxima que uma TV de alta definição do mercado alcança. Uma TV Full HD tem 1920 pixels de resolução horizontal por 1080 linhas de resolução vertical, o que permite um melhor detalhamento da imagem.
Bem, rsrsrs. Um sorriso amarelo veio a calhar. Ainda bem que não voltei à loja! Já pensaram no mico que iria pagar?
Hora da Explicação
Gostaria de pedir desculpas aos leitores que por ventura acessarem esse blog. O Lúpus tem prejudicado bastante as articulações das minhas mãos e isso tem me deixado um tanto abatida. Depois de um período de ausência, estou de volta. Pelo menos é essa a minha intenção. Obrigado pela paciência.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Marcelo Madureira_O Pacato Cidadão no Fantástico
Confesso que não sou de assistir os programas oferecidos pela nossa telinha. O Programa “Fantástico”, por exemplo, há muito deixou de fazer juz ao nome e muitas vezes passa da mediocridade ao ridículo,como é o caso do quadro apresentado pelo Casseta Marcelo Madureira nas suas viagens ao redor do mundo, onde tenta em tom jocoso e com muito mau gosto ser cômico. No último programa, por exemplo o texto e o contexto chegam às raias do absurdo e me fez lembrar da “gafe” cometida pela atriz global Maitê Proença em Portugal, quando a mesma sem a mínima reverência chega ao cúmulo de cuspir numa fonte pública em detrimento dos portugueses. Bom, voltando ao domingo “Fantástico” a analogia utilizada pelo comediante sobre o comércio da seda e o tráfico de drogas, me deixou pasma! Só para exemplificar: algumas pessoas que se encontravam em minha casa assistindo ao programa, pessoas essas que como a grande maioria dos brasileiros são “analfabetos funcionais” , acreditavam piamente em tudo que ele (Marcelo Madureira) dizia e com os olhos presos à tela assistiram cheios de pena ou comiseração a “seção de tortura” a que o mesmo foi submetido nas masmorras do Irã. Eu, tentava apartear e esclarecer as mensagens e as falas mas percebi que não estava sendo levada a sério e resolvi me calar. Em nenhum momento essas pessoas se deram conta do “humor” contido no mesmo. Sempre acreditei no poder da mídia e gosto quando alguém se utiliza da mesma para agregar conhecimento e informação ao nosso povo, tendo em vista que a TV aberta ainda é o único meio de diversão de milhares de famílias brasileiras. No entanto quando esses seres que (ao meu ver) se julgam Onipotentes Globais, se esmeram em desconstruir o pouco que se tem de cultura, é algo me deixa indignada e entediada. Sem falar que qualquer pessoa de bom senso sabe que deve ter respeito em terra alheia. Para mim são de muito mau gosto as “brincadeirinhas” do senhor Marcelo Madureira, tanto quanto o foi a da senhora Maitê em Portugal. Fica aqui o meu isolado protesto sobre a desconstrução cultural promovida e acentuada pela nossa mídia. Mas fazer o que? São coisas da vida, ou melhor: faz parte, como dizia o ex-BBB Bambam.
Como ainda não aprendi a colocar links no meu blog, fica aí o endereço do Youtube para quem quiser acessar o caso Maitê. É só copiar os links e colar no seu navegador:
http://www.youtube.com/watch?v=TPru2MrSTyY
http://www.youtube.com/watch?v=xqj8xsgH9oI&feature=related
Para ver as viagens do Pacato cidadão basta digitar no Youtube:
http://www.youtube.com/results?search_query=Marcelo+Madureira+pacato+cidad%C3%A3o&aq=f
Bem. Espero mais uma vez ter sido útil. Boa sorte a todos.
sábado, 22 de maio de 2010
Poeira para todo o lado! Adeus final de semana sem poeira!
sábado, 15 de maio de 2010
Em algum lugar do Brasil, sem telefone, sem celular e entregue a sorte
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Histórias de amigos (as) inesquecíveis
Eu e minha amiga Dulce estávamos visitando parentes dela quando o casal (donos da casa) iniciaram uma briga feia. O marido descobriu que a mulher o estava traindo com o caseiro e dizia em voz alta que ia matá-la. A mãe da minha amiga era sua tia e sabia onde ele costumava guardar o revolver que possuía. Antes que ele fosse ao quarto ela pegou a arma e entregou na nossa mão pedindo para que nós duas nos escondêssemos bem longe dali. Eu, por ser mais velha, (estava com doze anos e Dulce tinha onze) peguei o revolver, coloquei dentro da blusa e saí correndo enquanto a Dulce me seguia. Já distante e num local deserto paramos e fomos observar a arma. Eu vi que estava carregada e travada, mesmo assim tratei de segurá-la com cuidado. Era fã dos filmes de Bang-Bang e me achava “expert” em armas...Dulce não frequentava cinema e quando o fazia era para assistir filmes românticos ou infantis. Num dado momento ela me pediu para segurar a arma um pouquinho e eu, cansada da corrida entreguei a arma na mão dela e sentei-me na grama para descansar. De repente ouvi um estalido e me virei: Dulce havia destravado a arma e com o cano da mesma encostado ao peito, fazia menção de puxar o gatilho! Apavorada, dei um pulo em sua direção e consegui tirar (com cuidado) a arma da sua mão. Por precaução (e ainda tremendo pelo susto) descarreguei o revolver e joguei as balas dentro de um riacho próximo dali. Ficamos por ali até o entardecer e quando voltamos para casa os ânimos haviam se acalmado e tudo estava bem. A paz voltou a reinar entre o casal. Para todos os efeitos, a mãe da Dulce é quem havia retirado e escondido a arma. O rapaz (marido traído) nunca soube da nossa participação no caso. Para nós duas, no entanto foi um dia difícil e inesquecível que poderia ter se transformado numa tragédia graças a ingenuidade e a curiosidade da minha amiga. Coisas da vida. Infelizmente, nem sempre estamos preparados para esse tipo de eventualidade e o acaso quando acontece, pode nos levar a rir ou a chorar. Felizmente no nosso caso, ficou apenas a lembrança e a cumplicidade amiga compartilhada.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
A riqueza da vida_Daisaku Ikeda
Hoje, mais uma vez decido dedicar minha vida ao kossen rufu.
De ser tão forte, que nada abalará a paz do meu espírito.
De transmitir saúde, alegria e esperança a todos que eu encontro.
De fazer sentir a meus amigos, que há algo bom e magnífico neles.
De olhar o lado positivo de todas as coisas e de ser otimista na vida.
De só pensar no melhor e de me esforçar para agir e admirar o melhor.
De ser feliz pela vitória dos outros, como pela minha própria.
De não esquecer os erros do passado e de avançar decidido, a obter os melhores resultados no futuro.
De dedicar tanto tempo ao meu aperfeiçoamento pessoal,que não sobrará nenhum para criticar os outros.
De ser forte contra o medo, nobre contra a cólera, firme contra a dúvida.
De aprofundar a minha fé a cada dia para que o Gohonzon me indique a estrada a seguir na vida.
(Daisaku Ikeda)
Até que enfim! Estamos nos equiparando ao primeiro mundo!!!
Não é sempre que assisto aos programas televisivos que invadem a nossa
telinha, com exceção apenas para os noticiários e alguns documentários.
O lazer (porque ninguém é de ferro) fica por conta de alguns filmes, uma ou outra novela, o Programa do Sr. Raul Gil (principalmente o quadro dos calouros) e quadros tipo “reforma de casa” dos programas do Gugu, do Luciano Hulk e Celso Portiori. Isso devido ao fato de que eu adoro decoração e me realizo vendo as transformações realizadas pelas suas equipes.
Hoje assistia ao programa Hoje em Dia na Rede Record e passou uma matéria sobre a versão brasileira (edição São Paulo)do Pet Fashion Week (evento que já acontece em Nova Yorque e em Tóquio). Desfile de roupas para cãesinhos de estimação. E haja novidades no ramo!!! Entre as peças uma cujo valor é de US$ 21 mil!!! Até calça jeans os bichinhos já podem usar! Enquanto rolava a reportagem eu me distraía na máquina de costura e fiquei pasma quando a comentarista disse que o Brasil já é o segundo país nesse tipo de negócio, tendo ultrapassado até o Japão! Ao ouvir a noticia a minha inspiração de costureira se evaporou e eu eu parei para refletir...
Enfim, o Brasil já é um país de primeiro mundo! Aqui não existe favelas, nem crianças passando fome, a educação é nota dez, a criminalidade é baixíssima, enfim: estamos quaaaase nos mesmo patamar que os Estados Unidos e Japão. Isso nos torna aptos a gastarmos tanto com tão pouco.
Digo tão pouco, porquê acredito piamente que o dinheiro gasto com coisas supérfulas como essas poderia ser usado para diminuir a desigualdade social no país.
Se os consumidores contumazes desse mercado fossem pessoas de bom senso, por certo prefeririam tratar os seus bichinhos de estimação com menos luxo e fariam uso racional de suas finanças de uma maneira mais humana. Exemplos de projetos sociais bem sucedidos estão por toda a parte e se fossem multiplicados talvez chegassem àquelas crianças que atravessam rios e valões enlameados para chegarem a uma escola onde a falta de recursos é total e irrestrita. Quem sabe esses recursos fizessem a diferença. Infelizmente, enquanto se gasta desnecessáriamente em bens supérfulos, a roda da miséria e da pobreza continua a se espandir apesar dos “Bolsas Para Tudo” (e não para todos) que o Governo distribui.
Sem emprego, sem saúde e sem educação uma grande parcela da população brasileira gostaria de ter nascido cachorro.
É assim que se desconstrói um país. E é assim que se perpetua a fome e a miséria.
Parabéns Brasil por ter alcançado o segundo lugar no mercado de roupas e acessórios para animais de estimação!
Uma nota: o desfile noturno é beneficente, pois apoia a causa do "cão guia" e toda a renda do desfile noturno será destinada ao Instituto Cão-Guia Brasil.
Pena que enquanto isso a estima e a consideração pelo ser humano continua em baixa.
terça-feira, 2 de março de 2010
Momentos_1953
Naquela
manhã, acordei bem. Era de natureza frágil e suscetível as doenças comuns das
crianças, por isso nem sempre tinha disposição para brincar. Depois do café,
sai e me pus a correr com um arco de borracha feito com um pedaço de pneu
velho. Na casa da frente havia um movimento estranho. Pessoas se aglomeravam na
porta num entra e sai sem fim. Eu observava afastada sem saber o que estava
acontecendo. Aos pouco fui vencida pela curiosidade e me aproximei. Por entre
frestas, pude ver que dentro da casa, pessoas choravam. No meio da sala havia
uma mesa coberta com um pano branco que ia até o chão e em cima desta mesa
havia um caixão de defunto. Eu estava acostumada a ver caixões nas lojas das
funerárias quando por lá passava acompanhada dos meus pais. Achava alguns feios
e outros bonitos. Esse que ali estava era roxo e feio. Eu ainda ia completar
quatro anos e não estava habituada com a morte. Enquanto olhava distraidamente
para dentro da casa, uma moça que estava do meu lado, me pegou pelo braço e
entrando na casa disse:
—Venha,
Luiza! Venha dar adeus a Dona Pombinha!
Antes
que eu soubesse o que estava acontecendo, a moça me suspendeu para que eu visse
o rosto da defunta. Inexplicavelmente o terror se apossou de mim e eu comecei a
gritar e a me debater com tanta força que a moça se viu forçada a me soltar.
Saí dali aliviada e confusa. Nunca entendi muito bem o porque daquele meu
comportamento, afinal, nem cheguei a ver as flores do caixão. Me aterrorizei
apenas com a proximidade do mesmo. A sensação de medo e desespero foi tão forte
que eu instintivamente passei a evitar tudo que se referisse a morte.
Mãe Moderna
Mãe Moderna
A mãe chegou ao Posto de Saúde e se dirigiu ao
setor da Emergência.
Trazia no colo uma criança de poucos meses que
chorava sem parar.
A Pediatra de plantão, se inquietou ao ouvir o
choro da criança.
Pediu às mães que estavam na fila, para que dessem
à vez para aquela mãe, e elas concordaram.
A mãe então contou o que estava acontecendo. Disse
que já não sabia o que fazer. Há noites que não dormia com o choro do filho.
Nem ela e nem o marido. Disse também que estava medicando a criança em casa com
Dipirona e Melhoral Infantil, mas que nada estava resolvendo.
Ao examinar a criança, a doutora constatou
estarrecida que a criança tinha um ferimento na moleira. O ferimento cheirava
mal e ela pediu para que fosse feito um curativo no local.
As enfermeiras logo se apressaram em
atendê-la. Assim que colocaram o
líquido anti-séptico, larvas em quantidade, começaram a sair da ferida.
As enfermeiras chamaram a médica que pode então ver
a razão do choro insistente daquela
criança. Num exame mais minucioso, descobriu que pela profundidade da ferida,
provavelmente os vermes ali alojados,deveriam estar causando lesões graves
talvez até mesmo no cérebro da criança.
Imediatamente encaminhou mãe e filho para que fosse
feito um ultra-sonografia craniana para que pudesse avaliar os danos causados
pelo descaso daquela mãe.
As enfermeiras e todo o pessoal que prestava
serviço naquele hospital, e que presenciaram ao sofrimento daquele menino de
apenas quatro meses, se revoltaram e só não lincharam a mãe, porque policiais
que estavam de plantão, impediram.
Ao final, todos se perguntavam:
“Como é que Deus dá filho a uma pessoa como essa?”
domingo, 13 de dezembro de 2009
Uma História Sobre Quatro Pessoas
Esta é uma história
sobre quatro pessoas.
TODO MUNDO, ALGÚEM,
QUALQUER UM E NINGUÉM.
Havia um grande trabalho a ser feito.
TODO MUNDO tinha certeza
de que ALGUÉM faria.
QUALQUER UM poderia tê-lo feito,
mas NINGUÉM o fez.
ALGUÉM zangou-se,
porque era um trabalho de TODO MUNDO.
TODO MUNDO pensou que
QUALQUER UM poderia fazê-lo.
Ao final TODO MUNDO
culpou ALGUÉM
quando NINGUÉM fez o que
QUALQUER UM poderia ter feito.
Desconheço o autor do texto.
sobre quatro pessoas.
TODO MUNDO, ALGÚEM,
QUALQUER UM E NINGUÉM.
Havia um grande trabalho a ser feito.
TODO MUNDO tinha certeza
de que ALGUÉM faria.
QUALQUER UM poderia tê-lo feito,
mas NINGUÉM o fez.
ALGUÉM zangou-se,
porque era um trabalho de TODO MUNDO.
TODO MUNDO pensou que
QUALQUER UM poderia fazê-lo.
Ao final TODO MUNDO
culpou ALGUÉM
quando NINGUÉM fez o que
QUALQUER UM poderia ter feito.
Desconheço o autor do texto.
sábado, 21 de novembro de 2009
Como comprar um tesourinha...
Numa Loja em Campo Grande_RJ
Há dias venho pensando em comprar uma tesourinha e fui a uma loja de renome no ramo costura e artesanato com a intenção de concretizar o meu plano. Assim que entrei perguntei a moça do balcão se havia tesourinhas para vender. De pronto ela me respondeu que sim e esticou o braço me apontando na parede às minhas costas um painel repleto de tesouras de todos os tipos, formatos e funções. Detalhe: o painel que media em torno de 90cm de largura por 1 metro de comprimento (avaliação do meu olhômetro de costureira) estava afixado na parte mais alta da parede. As tesouras estavam presas e catalogadas por tamanho. Em cima estavam as menores (bem pequenas, digo eu) e as tesouras maiores, as de picotar e tesourões na parte de baixo, a cerca de um metro e meio do chão. Todas estavam marcadas com os preços e com um código numerado escrito com canetinha preta ou vermelha. É claro que as tesouras grandes estavam bem visíveis, porém eu estava interessada numa tesoura pequena e os óculos que uso para perto dificultavam em muito a minha visão. Expliquei a moça a minha dificuldade e ela me perguntou:
—A senhora que com a ponta curva ou com a aponta fina?
Fiquei indecisa. Tinha em mente um modelo específico de tesoura que a minha mãe usava para fazer os seus bordados richelieu, mas olhando daquela distância as tesouras me pareciam indefinidas. Querendo agilizar o processo de compra da tesoura escolhi a olho uma que me pareceu ser mais ou menos parecida com o que tinha em mente e apontei (da melhor maneira possível) o objeto da minha escolha. Ela se apressou a sair em busca do objeto:
— Já sei! A ...78.
— Olhei para o painel para me certificar e embora não conseguisse enxergar os outros números vi que o final era 2 e não 8. Enquanto isso ela voltava coma tesourinha na mão. Olhei para mesma e disse:
— Não é essa que eu quero! A moça já sem paciência me disse:
— Mas foi essa que a senhora me mostrou!
Com calma eu expliquei a ela (apontando novamente) que a tesoura escolhida por mim era a que terminava com o número 2. Então ela pareceu se zangar e me disse:
— Mas aquela é para cortar cabelo!
Tentando ser objetiva e prática eu repliquei:
— Filha. Veja bem. Eu uso óculos para perto e faz muito tempo que passei dos quarenta. Daqui de baixo eu não consigo ver o formato da tesoura. Se o painel estivesse ao alcance dos meus olhos com certeza eu saberia lhe dizer com mais clareza o que quero, mas já que estamos perdendo nosso tempo, por favor traga uma tesoura daquela que eu amostrei pra que eu possa ver. Ela saiu para atender o meu pedido e de repente ouvi um grito. Me debrucei no balcão e vi a moça que estava me atendendo parada e com ar de assustada no corredor ao lado do armário onde estavam as tesouras dizendo para as amigas:
— Uma barata! Uma barata!
As amigas riam e uma ainda disse:
— Deixe a bichinha passear...
Tentando ser discreta me afastei do balcão e a moça veio logo em seguida me dizer que infelizmente o modelo de tesoura que eu queria estava em falta. Olhei nos seus olhos, agradeci e saí da loja com a sensação de que ao entrar ali e quere uma tesourinha eu havia feito algo de errado. Constrangi a vendedora e ainda a obriguei a levar um susto com a barata. Fiquei me perguntando:
Será que eles usam a “tática” do painel inacessível para dificultar a venda?
E deduzi: Talvez eles não queiram vender tesouras.
Há dias venho pensando em comprar uma tesourinha e fui a uma loja de renome no ramo costura e artesanato com a intenção de concretizar o meu plano. Assim que entrei perguntei a moça do balcão se havia tesourinhas para vender. De pronto ela me respondeu que sim e esticou o braço me apontando na parede às minhas costas um painel repleto de tesouras de todos os tipos, formatos e funções. Detalhe: o painel que media em torno de 90cm de largura por 1 metro de comprimento (avaliação do meu olhômetro de costureira) estava afixado na parte mais alta da parede. As tesouras estavam presas e catalogadas por tamanho. Em cima estavam as menores (bem pequenas, digo eu) e as tesouras maiores, as de picotar e tesourões na parte de baixo, a cerca de um metro e meio do chão. Todas estavam marcadas com os preços e com um código numerado escrito com canetinha preta ou vermelha. É claro que as tesouras grandes estavam bem visíveis, porém eu estava interessada numa tesoura pequena e os óculos que uso para perto dificultavam em muito a minha visão. Expliquei a moça a minha dificuldade e ela me perguntou:
—A senhora que com a ponta curva ou com a aponta fina?
Fiquei indecisa. Tinha em mente um modelo específico de tesoura que a minha mãe usava para fazer os seus bordados richelieu, mas olhando daquela distância as tesouras me pareciam indefinidas. Querendo agilizar o processo de compra da tesoura escolhi a olho uma que me pareceu ser mais ou menos parecida com o que tinha em mente e apontei (da melhor maneira possível) o objeto da minha escolha. Ela se apressou a sair em busca do objeto:
— Já sei! A ...78.
— Olhei para o painel para me certificar e embora não conseguisse enxergar os outros números vi que o final era 2 e não 8. Enquanto isso ela voltava coma tesourinha na mão. Olhei para mesma e disse:
— Não é essa que eu quero! A moça já sem paciência me disse:
— Mas foi essa que a senhora me mostrou!
Com calma eu expliquei a ela (apontando novamente) que a tesoura escolhida por mim era a que terminava com o número 2. Então ela pareceu se zangar e me disse:
— Mas aquela é para cortar cabelo!
Tentando ser objetiva e prática eu repliquei:
— Filha. Veja bem. Eu uso óculos para perto e faz muito tempo que passei dos quarenta. Daqui de baixo eu não consigo ver o formato da tesoura. Se o painel estivesse ao alcance dos meus olhos com certeza eu saberia lhe dizer com mais clareza o que quero, mas já que estamos perdendo nosso tempo, por favor traga uma tesoura daquela que eu amostrei pra que eu possa ver. Ela saiu para atender o meu pedido e de repente ouvi um grito. Me debrucei no balcão e vi a moça que estava me atendendo parada e com ar de assustada no corredor ao lado do armário onde estavam as tesouras dizendo para as amigas:
— Uma barata! Uma barata!
As amigas riam e uma ainda disse:
— Deixe a bichinha passear...
Tentando ser discreta me afastei do balcão e a moça veio logo em seguida me dizer que infelizmente o modelo de tesoura que eu queria estava em falta. Olhei nos seus olhos, agradeci e saí da loja com a sensação de que ao entrar ali e quere uma tesourinha eu havia feito algo de errado. Constrangi a vendedora e ainda a obriguei a levar um susto com a barata. Fiquei me perguntando:
Será que eles usam a “tática” do painel inacessível para dificultar a venda?
E deduzi: Talvez eles não queiram vender tesouras.
Dia da Consciência Negra (ou do negro)
Ontem, Dia da Consciência Negra foi feriado por aqui. Todos os anos, devido a esse fato, vários eventos são elaborados e em quase todos os lugares se encontra diversão fácil e de excelente qualidade, todas elas direcionadas para o público afro descendente. É claro que a intenção maior é conscientizar a população negra sobre a história e os costumes de sua etnia e dar a eles a ilusão de que são valorizados pela sociedade. Durante os dias que antecedem ao feriado, a televisão exibe comerciais sobre o assunto e algumas vezes inclui em sua programação peças ou documentários voltados ao mesmo tema. Dessa vez, como sempre eu estava ligada na TV já que a saúde, ou melhor: a falta dela me obriga a ficar em casa e pude me deliciar com uma reportagem de alto nível exibida pela TVE Brasil sobre o Continente Africano, alguns dos seus povos e a analogia que existe entre os costumes e a vida dos negros daqui com os costumes e os negros de lá. A reportagem inicia falando dos Pgmeus (povo discriminado tanto pelos brancos como pelos negros de outras etnias pela sua estatura). Enquanto assistia e ouvia a fala e os comentários da repórter, fui me reportando a velhas falas e imagens da minha infância, onde o negro era sempre visto e tido como um ser inferior e de inteligência duvidosa. De repente me dei conta que, assim como a maioria dos negros do Brasil, não tenho identidade africana e como afro-descendente a minha memória é memória brasileira carregada de exclusão e preconceito. Sou neta de um escravo africano e nada sei de sua vida ou da sua história fora do Brasil. Como lembrança trago na certidão de nascimento o nome que ele herdou do seu Senhor: André Avelino dos Santos e também que vivia na cidade de Penedo, no Estado de Alagoas. E com tristeza descobri que a minha história para por aí. Não sei quem foram meus ancestrais, ou de que parte da África vieram. Qual o tipo de bagagem cultural que trouxeram ou coisa que o valha. Da família da minha mãe eu sei bastante. Meu avô materno era português, comerciante, viveu em Santo Amaro da Purificação na Bahia e até hoje eu tenho contato com primos e outros parentes. Mas a minha raiz africana, ficou relegada ao esquecimento. Meu pai nada sabia da vida do meu avô e nunca deve ter se importado com isso, já que não é costume entre os negros falar de “imigração” pois eles vieram para cá sem escolha e contra a vontade. A minha pele negra diz que sou afro-descendente, mas isso é muito pouco para que eu viva a minha negritude em toda a sua plenitude. Sem identidade, como posso sentir orgulho de mim mesma e lutar pelos meus direitos, da maneira que tentam me incutir? No dia da Consciência Negra, descobri que a minha consciência de negritude é muito fraca e é por isso que me tornei o que sou. Um barco à deriva no mar do esquecimento para onde fui levada, assim como meus irmãos de cor. Lutar contra isso é difícil. Afinal contra o que mesmo eu devo lutar? Contra o preconceito racial? Como assim, se dizem que não há raças? Contra a exclusão social? Como, se sou afro-descendente e neta de escravos? Vocês hão de convir que todo o descendente herda alguma coisa dos seus progenitores, seja de ordem material ou genético, sendo assim... Do meu avô escravo devo ter herdado a pobreza e a resignação. Só assim se explica todos esses anos de exclusão e sofrimento. Chorei durante toda a reportagem. Me vi ali nos rostos daquelas mulheres negras e primitivas que levam suas vidas afastadas da sociedade contemporânea, com todos os seus parcos sonhos se resumindo quase sempre a um homem, um pouco de água limpa, e um pouco de dança para sufocar a dor. Querer mais do que isso é querer demais. O carnaval aqui do outro lado do Atlântico, nos dá a mesma sensação. É ali nos sambódromos da vida que deixamos de lado a nossa insignificância e nos travestimos de reis, rainhas e princesas e anestesiamos a alma para dar continuidade à vida nesta terra onde viemos parar e que teima em nos desamparar.
Salve o Dia da Consciência Negra! E salve os negros que de sua história conseguem ter consciência.
Salve o Dia da Consciência Negra! E salve os negros que de sua história conseguem ter consciência.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Às vezes se mata alguém por nada... (ou) Uma morte sem motivos
Sandra era casada com José. Quando casou estava apaixonada como a maioria das moças. José era um rapaz forte, trabalhador e era uma boa pessoa. Ela era de Minas Gerais e estava no Rio desde os 13 anos. Trabalhava em casa de família e não tinha muitos sonhos. Quando José lhe propôs casamento ela logo aceitou. Não sentia muita falta da família e casar era o seu maior sonho. Com o casamento deixou o emprego e logo engravidou. Quando o primeiro filho nasceu, José ficou radiante, afinal tudo o que ele mais queria era um filho homem. No ano seguinte Sandra deu a luz a Mariana. Agora sim, estava feliz, pois tinha uma menina. José trabalhava de porteiro e geralmente estava descansado e de bom humor. Com isso, Sandra e José dividiam as tarefas domésticas. Moravam numa pequena vila de casas e contavam sempre com a ajuda e a presença de alguns vizinhos e amigos. Nos primeiros cinco anos de casados, foram felizes. Ou melhor pareciam felizes, até que Sandra se deu conta da rotina em que sua vida se tornara.
Então as coisas começaram a mudar. José estranhou quando Sandra passou a se enfeitar e a exigir dele coisas que antes não pareciam lhe fazer falta, como roupas e sapatos da moda, e tantas outras coisas que ele considerava supérfluas, quase sempre ligadas a beleza a vaidade. A mudança no comportamento de Sandra continuou e ela aos pouco foi se afastando dos amigos do casal. As crianças passaram a ocupar um lugar secundário na vida de Sandra e sentindo-se rejeitadas, se apegaram ainda mais ao pai. O tempo passando e Sandra cada vez mais ausente. José pressentiu a traição. Observava a mulher enquanto esta se enfeitava para sair e via nos seus olhos o vulto de outro homem. Respirava fundo e se refugiava no carinho dos filhos. Fazia de tudo para se mostrar impassível. Não. Ele jamais deixaria que Sandra notasse o quanto ele sabia do que ela tentava esconder. A cama se tornara grande demais para os dois e José fingia adormecer no sofá. No dia seguinte pedia “desculpas” a mulher pela sua falta. José soube de Juarez. Soube por boca de amigos preocupados com a vida que Sandra estava levando. E choviam informações:
—Tem um tal de Juarez por aí dando em cima das mulheres dos outros, compadre. O senhor ta sabendo de alguma coisa?
—É claro que não! Eu não estou sabendo de nada. Também compadre eu não tenho muito tempo para essas coisas. As crianças me tomam um tempo danado. Aliás, eu tinha me esquecido que prometi a Mariana que ia ajudar ela nos deveres da escola! Outra hora a gente conversa!
E José saía pela tangente. Aquele assunto realmente era difícil para ele. E morria de inveja dos compadres que não estavam passando por esse tipo de problemas. Foi assim que tudo teve início.
Sandra não agüentava mais as “traições” de Juarez. Todos os dias, ouvia comentários sobre suas novas paqueras e aventuras. Estava decidida a por um fim naquilo e pela milésima vez iniciou uma discussão. Juarez reagiu como sempre fazia e as ofensas eram recípocras. Sandra estava desnorteada. Queria que o amante negasse e lhe pedisse desculpas, como fazia no inicio do relacionamento, mas desta vez a coisa foi diferente. Juarez não só confirmou os boatos, como ameaçou terminar tudo entre os dois. Num acesso de raiva, Sandra se armou com um pé de cabra e com golpes fortes e certeiros acabou com a vida de Juarez. O sangue se espalhou pelas paredes, pelo chão e respingou toda a sua roupa.
Enquanto isso, em casa, José esperava. Estranhando a demora da mulher saiu a sua procura. Há tempos sabia que ela tinha um amante e evitava se pronunciar sobre o fato. Amava em demasia aquela mulher e faria de tudo para continuar com ela. Sabia perfeitamente aonde ela costumava se encontrar com o amante.
Juarez tinha uma pequena casa numa outra vila não muito distante dali e era lá que Sandra costumava se encontrar com ele. Sandra bem que poderia escolher um local mais distante do local onde morava com o marido e os dois filhos para se encontrar com o amante, mas era imatura demais para ter cautela. Juarez era um mulato jovem, boa pinta e aventureiro. Vivia dando em cima das mulheres alheias e se vangloriava disso.
Algumas vezes, com o peito quase arrebentando de ciúmes, José havia planejado a morte daquele rapaz e até imaginava de que maneira acabaria com ele. No final, sorria satisfeito com o seu feito e a morte “imaginária” de Juarez. Mas os filhos sempre o traziam de volta a realidade. Jamais poderia olhar as crianças de frente se um dia se tornasse um assassino. Não era isso que queria para si e seus filhos mereciam sorte melhor. Já não contavam com a atenção da mãe que vivia dizendo “não ter tempo” para eles e caso José fosse preso quem iria cuidar dos mesmos? Com todas essas indagações bailando em sua cabeça José saiu de casa e se dirigiu ao endereço de Juarez. Já estava escurecendo e José se aproveitou disso para chegar sem ser visto. Para a sua sorte as mulheres que sempre se sentavam na entrada da vila para dar uma “olhadinha” na vida de quem passava, estavam entretidas com o jantar e com as novelas. José se aproximou com cautela. O que iria dizer a mulher? Teria que ser forte e fingir que não sabia de nada. Tentaria fazer de conta que estava ali por acaso. Falaria apenas o necessário e sairia dali o mais rápido possível, pois não queria ver a cara de Juarez. Bateu levemente na porta. Procurava ser discreto. Ouviu um barulho e teve certeza de que havia alguém na casa. Chamou pela mulher em voz baixa:
—Sandrinha, sou eu José. As crianças estão esperando...
Falou se virou para ir embora. Não daria a Juarez a chance de ver o seu semblante de marido traído, de “corno sabido”. Mas a porta se abriu e Sandra o puxou pelo braço.
—José, que bom que você está aqui! Foi Deus quem mandou você!
Sandra estava pálida e desfigurada. Suas mãos estavam frias e trêmulas. Continuava a puxar José pelo braço e José desconfiou que algo de muito ruim devia ter acontecido entre Sandra e Juarez. Sem se dar tempo para pensar ele seguiu a mulher para dentro da casa. Assim que ele entrou, Sandra fechou a porta e praticamente o arrastou para os fundos da residência. Ao se dar conta do que havia acontecido, José engoliu em seco. Juarez estava caído numa poça de sangue. tinha um enorme ferimento na cabeça e aparentemente estava morto. Sandra, gesticulava e esfregava as mãos sem parar enquanto repetia:
—Eu não queria. Eu juro que não queria fazer isso...
José se abaixou e examinou o corpo. Juarez realmente estava morto. Levantou-se e olhou com atenção para Sandra. Em seu vestido e em suas mãos havia vestígios de sangue.
José não era um homem violento. Além de tudo era uma pessoa honesta. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi ir com a mulher a delegacia mais próxima para que ela se entregasse. Sandra captou a intenção no olhar do marido e se desesperou:
—Não José! Por favor não me denuncie. Eu preciso que você me ajude. Será que você não está vendo como eu estou me sentindo? Se você me denunciar eu vou ser presa e quem vai cuidar dos nossos filhos?
Pela primeira vez na vida José sentiu vontade de bater em Sandra. Como ela podia se valer de um argumento tão baixo como aquele? Logo ela que nunca havia se importado com as crianças e que sempre fez questão de tratá-los como estorvo. Aquilo não era justo. Sandra merecia ser castigada pelo seu crime e José sabia perfeitamente disso. Bastava apenas que ele se armasse de coragem e fizesse a coisa certa. Sandra sentou-se num canto e começou a chorar. Chorava como uma criança que quebrara o seu brinquedo preferido. Jose sabia muito bem o motivo do seu choro, porém era um homem piedoso e não podia deixar de sentir pena de Sandra. No mais completo silêncio pegou o pedaço de ferro que Sandra usara para bater na cabeça de Juarez levou para o banheiro e começou a lavar. Depois com um pano de chão limpou todas as manchas espalhadas pelo chão e pelas paredes onde as mãos e as impressões digitais de Sandra pudessem aparecer. Segurou o ferro com um pano e colocou outra vez ao lado do corpo. Ajudou a mulher a se recompor e a limpar bem o vestido. José deu a idéia: Os dois ficariam ali até que os vizinhos adormecessem e só então sairiam. Ficaram ali, por muito tempo abraçados sem dizer palavra. Sandra vez por outra, soluçava cabisbaixa e em silêncio. Tarde da noite saíram sem que ninguém os visse e foram para casa. Quando chegaram em casa as crianças já estavam dormindo. Eles sabiam que podiam contar sempre com a ajuda da vizinha e amiga de longa data, Neide. Neide gostava muito das crianças e sempre que necessário cuidava delas. Nessa noite José não conseguiu pregar o olho. Ficou deitado no escuro com a cabeça no travesseiro dando voltas e mais voltas no pensamento... Sandra por sua vez assim que conseguiu se deitar adormeceu. Às vezes se mexia e abria os olhos, assustada. Nesses momentos José estava ali com o seu abraço e o seu silêncio acalmando a mulher.
Já era quase meio dia quando a notícia chegou através de Neide:
—Sabe o Juarez? Aquele safado que adorava pegar as mulheres dos outros? Pois é! Foi pros quintos dos Infernos. Foi bem feito! O infeliz teve o que merecia.
Além de algumas mulheres da vizinhança que se sentiam “enviuvadas” os homens e as pessoas de bem daquele local não estavam muito pesarosas com a morte de Juarez. Para o delegado “um crime tipicamente passional”. Algum marido traído fizera o serviço.
Sandrinha procurava demonstrar naturalidade. Passou o dia brincando com as crianças. Quase não botou a cara na rua. Neide chegou até a brincar:
—Que é isso mulher? Viu passarinho verde hoje, é?
José ao chegar do serviço encontrou uma Sandra diferente. A casa estava arrumada e as crianças de roupa limpa. No fogão a janta se anunciava. Abraçou as crianças e deu um beijo na esposa. Por um momento teve a impressão de que ela lhe retribuiu. Mas qual o que! Devia ser sua impressão. À noite na cama Sandra fez questão de dormir quase colada a José. José estremeceu de felicidade. Afinal há muito tempo não tinha esse prazer com a esposa.
Os dias foram passando e a vida de José e de Sandra aos pouco foi voltando ao normal. Ela já saía de vez em quando, mas quase sempre levava uma das crianças com ela. Um dia saiu para fazer umas compras e não levou as crianças. Já faziam mais de quatro meses que Juarez havia morrido e ela resolveu se aventurar e passar perto do local onde tudo havia acontecido.
Achou estranho. A casa estava ocupada por uma jovem mulher loira e duas crianças pequenas. Um menino de mais ou menos dois anos e uma menina ainda de colo. Como Sandra passava muito perto da porta a mulher lhe sorriu. Sandra retribuiu e aproveitou para brincar com a menina que a mulher segurava nos braços. Por um momento percebeu no rostinho da mesma os traços de Juarez. Sandra não queria acreditar. Não! Não podia de maneira nenhuma ser o que ela estava pensando. Num impulso perguntou?
—A menina é filha do falecido Juarez? Parece tanto com ele...
A resposta veio em tom de lágrimas:
—É. Eu sou a esposa dele. E pensar que minha filha não vai nem poder conhecer o pai direito. Nem ela nem o menino.
A frase ficou solta no ar. Sandra sentiu o chão fugir dos seus pés. Precisou de muita força para não cair. Pensava com seus botões: Esposa? Juarez então tinha uma esposa? Isso não era possível. Ele sempre lhe dissera que era solteiro e inúmeras vezes havia lhe pedido para abandonar o marido e se casar com ele... Então... era tudo mentira. Ele lhe enganara durante todo aquele tempo. E ela pensando que apesar de não ser a única em sua vida, era amada de verdade... Sim porque ela sabia de alguns dos seus casos, porém ele sempre dizia que eram casos sem nenhuma importância e era a ela, Sandra que ele amava. E ela acreditava piamente em tudo o que ele lhe dizia. Que idiota ela havia sido! Suas faces estavam sem cor e a moça notou:
—Está se sentindo mal? Quer sentar um pouco? Sandra pensou rápido e respondeu:
—É que eu ando com uns sintomas que parecem gravidez... de vez em quando sinto umas vertigens inesperadas, mas já estou bem. Na verdade tinha muita pressa em fugir dali.
—Fique com Deus e boa sorte para você e para as crianças.
Se afastou do local o mais rapidamente possível. Na cabeça as idéias se misturavam num verdadeiro redemoinho. Aquela mulher e sobretudo aquelas crianças (agora sem pai) eram o retrato da sua loucura e insensatez. Sandra se dava conta do tamanho da loucura que havia cometido. Havia tirado a vida de um homem por nada! Na verdade o seu crime não poderia ser classificado e nem mesmo ser considerado “um crime por amor” já que Juarez não lhe pertencia e (agora ela sabia)que entre eles não havia “amor”. Ele era por lei e por direito casado com aquela mulher que era a mãe dos seus filhos. E ela? Quem era ela na vida de Juarez? O que ela havia representado na vida dele? Ela era apenas mais uma das tantas que ele, usando de toda a sua maestria enganava. E agora ela estava ali. Uma assassina que se deixara dominar por um ciúme doentio e sem nenhuma razão de ser. Sem saber de onde, uma frase bailava em sua mente como se fosse uma espécie de oração:
“Às vezes se mata alguém por nada...”
Pensou nos próprios filhos e seu coração se apertou. E se fossem os seus filhos que ficassem privados da companhia do pai devido ao ato insensato de alguma louca enciumada? Naquele momento Sandra sentiu o verdadeiro peso dos seus atos. Quis correr para os braços de José, porém ainda estava distante de casa e José provavelmente estava no serviço.
Na sua agonia havia caminhado sem rumo durante algum tempo e agora percebia que se distanciara de casa. Estava em frente a uma pracinha e aproveitou para se sentar e descansar um pouco. Sandra sentiu as lágrimas chegando e se controlou. Não podia chorar em público. Sabia que podia estar sendo observada por alguém e não podia correr o risco de que seu crime fosse descoberto. Retomou o rumo de sua casa. Precisava se sentir segura. José ainda não havia chegado e as crianças também não estavam em casa. Sandra se sentiu feliz pela ausência dos filhos, mas queria muito que José estivesse ali do seu lado.
Deitou-se na cama e como num filme reviu toda a sua aventura com Juarez e se perguntava: Como pudera ser tão inconseqüente e leviana a ponto de não valorizar o seu marido, um homem (que só agora ela percebia) tão amigo e companheiro? Com o coração repleto de ressentimento e remorsos, Sandra adormeceu.
Neide trouxe as crianças da escola e encontrou Sandra dormindo.
—Acorda mulher! Acorda pra vida!
Sandra, ainda sonolenta recebeu com carinho o beijo dos filhos. Levantou-se e teve o cuidado de arrumar a cama com todo capricho. Depois de tomar um banho demorado, foi preparar o jantar. Queria mais do que nunca, agradar o marido. Esta noite, quando José chegasse encontraria além do seu prato preferido, a mulher apaixonada e dedicada com quem ele se casara. Neide percebeu o brilho do seu olhar e ainda brincou:
—É. Eu acho que hoje vou ter que ir para casa mais cedo! Parece que os dois pombinhos vão querer ficar sozinhos... É alguma data especial que eu estou me esquecendo?
Sandra sorriu e respondeu:
—Não, Neide. Não é nada de mais. É apenas o milagre do amor entre duas pessoas que se amam... É só isso.
Neide saiu pensativa, mas feliz. Sabia que alguma coisa havia mudado na vida de Sandra e José desde a morte de Juarez.. E havia mudado para melhor. Neide estava feliz, em ver como o casamento dos dois estava se recuperando. Quanto ao resto... Bom! O resto não importava muito, já que boatos e maledicências existem em toda a parte. Pra que estragar a vida deles com fofocas sobre o falecido? Era muito melhor deixar os mortos descansarem em paz! Se bem que ela tinha dúvida sobre o “descanso” de Juarez. Mas isso era pra Deus e não ela se preocupar.
Então as coisas começaram a mudar. José estranhou quando Sandra passou a se enfeitar e a exigir dele coisas que antes não pareciam lhe fazer falta, como roupas e sapatos da moda, e tantas outras coisas que ele considerava supérfluas, quase sempre ligadas a beleza a vaidade. A mudança no comportamento de Sandra continuou e ela aos pouco foi se afastando dos amigos do casal. As crianças passaram a ocupar um lugar secundário na vida de Sandra e sentindo-se rejeitadas, se apegaram ainda mais ao pai. O tempo passando e Sandra cada vez mais ausente. José pressentiu a traição. Observava a mulher enquanto esta se enfeitava para sair e via nos seus olhos o vulto de outro homem. Respirava fundo e se refugiava no carinho dos filhos. Fazia de tudo para se mostrar impassível. Não. Ele jamais deixaria que Sandra notasse o quanto ele sabia do que ela tentava esconder. A cama se tornara grande demais para os dois e José fingia adormecer no sofá. No dia seguinte pedia “desculpas” a mulher pela sua falta. José soube de Juarez. Soube por boca de amigos preocupados com a vida que Sandra estava levando. E choviam informações:
—Tem um tal de Juarez por aí dando em cima das mulheres dos outros, compadre. O senhor ta sabendo de alguma coisa?
—É claro que não! Eu não estou sabendo de nada. Também compadre eu não tenho muito tempo para essas coisas. As crianças me tomam um tempo danado. Aliás, eu tinha me esquecido que prometi a Mariana que ia ajudar ela nos deveres da escola! Outra hora a gente conversa!
E José saía pela tangente. Aquele assunto realmente era difícil para ele. E morria de inveja dos compadres que não estavam passando por esse tipo de problemas. Foi assim que tudo teve início.
Sandra não agüentava mais as “traições” de Juarez. Todos os dias, ouvia comentários sobre suas novas paqueras e aventuras. Estava decidida a por um fim naquilo e pela milésima vez iniciou uma discussão. Juarez reagiu como sempre fazia e as ofensas eram recípocras. Sandra estava desnorteada. Queria que o amante negasse e lhe pedisse desculpas, como fazia no inicio do relacionamento, mas desta vez a coisa foi diferente. Juarez não só confirmou os boatos, como ameaçou terminar tudo entre os dois. Num acesso de raiva, Sandra se armou com um pé de cabra e com golpes fortes e certeiros acabou com a vida de Juarez. O sangue se espalhou pelas paredes, pelo chão e respingou toda a sua roupa.
Enquanto isso, em casa, José esperava. Estranhando a demora da mulher saiu a sua procura. Há tempos sabia que ela tinha um amante e evitava se pronunciar sobre o fato. Amava em demasia aquela mulher e faria de tudo para continuar com ela. Sabia perfeitamente aonde ela costumava se encontrar com o amante.
Juarez tinha uma pequena casa numa outra vila não muito distante dali e era lá que Sandra costumava se encontrar com ele. Sandra bem que poderia escolher um local mais distante do local onde morava com o marido e os dois filhos para se encontrar com o amante, mas era imatura demais para ter cautela. Juarez era um mulato jovem, boa pinta e aventureiro. Vivia dando em cima das mulheres alheias e se vangloriava disso.
Algumas vezes, com o peito quase arrebentando de ciúmes, José havia planejado a morte daquele rapaz e até imaginava de que maneira acabaria com ele. No final, sorria satisfeito com o seu feito e a morte “imaginária” de Juarez. Mas os filhos sempre o traziam de volta a realidade. Jamais poderia olhar as crianças de frente se um dia se tornasse um assassino. Não era isso que queria para si e seus filhos mereciam sorte melhor. Já não contavam com a atenção da mãe que vivia dizendo “não ter tempo” para eles e caso José fosse preso quem iria cuidar dos mesmos? Com todas essas indagações bailando em sua cabeça José saiu de casa e se dirigiu ao endereço de Juarez. Já estava escurecendo e José se aproveitou disso para chegar sem ser visto. Para a sua sorte as mulheres que sempre se sentavam na entrada da vila para dar uma “olhadinha” na vida de quem passava, estavam entretidas com o jantar e com as novelas. José se aproximou com cautela. O que iria dizer a mulher? Teria que ser forte e fingir que não sabia de nada. Tentaria fazer de conta que estava ali por acaso. Falaria apenas o necessário e sairia dali o mais rápido possível, pois não queria ver a cara de Juarez. Bateu levemente na porta. Procurava ser discreto. Ouviu um barulho e teve certeza de que havia alguém na casa. Chamou pela mulher em voz baixa:
—Sandrinha, sou eu José. As crianças estão esperando...
Falou se virou para ir embora. Não daria a Juarez a chance de ver o seu semblante de marido traído, de “corno sabido”. Mas a porta se abriu e Sandra o puxou pelo braço.
—José, que bom que você está aqui! Foi Deus quem mandou você!
Sandra estava pálida e desfigurada. Suas mãos estavam frias e trêmulas. Continuava a puxar José pelo braço e José desconfiou que algo de muito ruim devia ter acontecido entre Sandra e Juarez. Sem se dar tempo para pensar ele seguiu a mulher para dentro da casa. Assim que ele entrou, Sandra fechou a porta e praticamente o arrastou para os fundos da residência. Ao se dar conta do que havia acontecido, José engoliu em seco. Juarez estava caído numa poça de sangue. tinha um enorme ferimento na cabeça e aparentemente estava morto. Sandra, gesticulava e esfregava as mãos sem parar enquanto repetia:
—Eu não queria. Eu juro que não queria fazer isso...
José se abaixou e examinou o corpo. Juarez realmente estava morto. Levantou-se e olhou com atenção para Sandra. Em seu vestido e em suas mãos havia vestígios de sangue.
José não era um homem violento. Além de tudo era uma pessoa honesta. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi ir com a mulher a delegacia mais próxima para que ela se entregasse. Sandra captou a intenção no olhar do marido e se desesperou:
—Não José! Por favor não me denuncie. Eu preciso que você me ajude. Será que você não está vendo como eu estou me sentindo? Se você me denunciar eu vou ser presa e quem vai cuidar dos nossos filhos?
Pela primeira vez na vida José sentiu vontade de bater em Sandra. Como ela podia se valer de um argumento tão baixo como aquele? Logo ela que nunca havia se importado com as crianças e que sempre fez questão de tratá-los como estorvo. Aquilo não era justo. Sandra merecia ser castigada pelo seu crime e José sabia perfeitamente disso. Bastava apenas que ele se armasse de coragem e fizesse a coisa certa. Sandra sentou-se num canto e começou a chorar. Chorava como uma criança que quebrara o seu brinquedo preferido. Jose sabia muito bem o motivo do seu choro, porém era um homem piedoso e não podia deixar de sentir pena de Sandra. No mais completo silêncio pegou o pedaço de ferro que Sandra usara para bater na cabeça de Juarez levou para o banheiro e começou a lavar. Depois com um pano de chão limpou todas as manchas espalhadas pelo chão e pelas paredes onde as mãos e as impressões digitais de Sandra pudessem aparecer. Segurou o ferro com um pano e colocou outra vez ao lado do corpo. Ajudou a mulher a se recompor e a limpar bem o vestido. José deu a idéia: Os dois ficariam ali até que os vizinhos adormecessem e só então sairiam. Ficaram ali, por muito tempo abraçados sem dizer palavra. Sandra vez por outra, soluçava cabisbaixa e em silêncio. Tarde da noite saíram sem que ninguém os visse e foram para casa. Quando chegaram em casa as crianças já estavam dormindo. Eles sabiam que podiam contar sempre com a ajuda da vizinha e amiga de longa data, Neide. Neide gostava muito das crianças e sempre que necessário cuidava delas. Nessa noite José não conseguiu pregar o olho. Ficou deitado no escuro com a cabeça no travesseiro dando voltas e mais voltas no pensamento... Sandra por sua vez assim que conseguiu se deitar adormeceu. Às vezes se mexia e abria os olhos, assustada. Nesses momentos José estava ali com o seu abraço e o seu silêncio acalmando a mulher.
Já era quase meio dia quando a notícia chegou através de Neide:
—Sabe o Juarez? Aquele safado que adorava pegar as mulheres dos outros? Pois é! Foi pros quintos dos Infernos. Foi bem feito! O infeliz teve o que merecia.
Além de algumas mulheres da vizinhança que se sentiam “enviuvadas” os homens e as pessoas de bem daquele local não estavam muito pesarosas com a morte de Juarez. Para o delegado “um crime tipicamente passional”. Algum marido traído fizera o serviço.
Sandrinha procurava demonstrar naturalidade. Passou o dia brincando com as crianças. Quase não botou a cara na rua. Neide chegou até a brincar:
—Que é isso mulher? Viu passarinho verde hoje, é?
José ao chegar do serviço encontrou uma Sandra diferente. A casa estava arrumada e as crianças de roupa limpa. No fogão a janta se anunciava. Abraçou as crianças e deu um beijo na esposa. Por um momento teve a impressão de que ela lhe retribuiu. Mas qual o que! Devia ser sua impressão. À noite na cama Sandra fez questão de dormir quase colada a José. José estremeceu de felicidade. Afinal há muito tempo não tinha esse prazer com a esposa.
Os dias foram passando e a vida de José e de Sandra aos pouco foi voltando ao normal. Ela já saía de vez em quando, mas quase sempre levava uma das crianças com ela. Um dia saiu para fazer umas compras e não levou as crianças. Já faziam mais de quatro meses que Juarez havia morrido e ela resolveu se aventurar e passar perto do local onde tudo havia acontecido.
Achou estranho. A casa estava ocupada por uma jovem mulher loira e duas crianças pequenas. Um menino de mais ou menos dois anos e uma menina ainda de colo. Como Sandra passava muito perto da porta a mulher lhe sorriu. Sandra retribuiu e aproveitou para brincar com a menina que a mulher segurava nos braços. Por um momento percebeu no rostinho da mesma os traços de Juarez. Sandra não queria acreditar. Não! Não podia de maneira nenhuma ser o que ela estava pensando. Num impulso perguntou?
—A menina é filha do falecido Juarez? Parece tanto com ele...
A resposta veio em tom de lágrimas:
—É. Eu sou a esposa dele. E pensar que minha filha não vai nem poder conhecer o pai direito. Nem ela nem o menino.
A frase ficou solta no ar. Sandra sentiu o chão fugir dos seus pés. Precisou de muita força para não cair. Pensava com seus botões: Esposa? Juarez então tinha uma esposa? Isso não era possível. Ele sempre lhe dissera que era solteiro e inúmeras vezes havia lhe pedido para abandonar o marido e se casar com ele... Então... era tudo mentira. Ele lhe enganara durante todo aquele tempo. E ela pensando que apesar de não ser a única em sua vida, era amada de verdade... Sim porque ela sabia de alguns dos seus casos, porém ele sempre dizia que eram casos sem nenhuma importância e era a ela, Sandra que ele amava. E ela acreditava piamente em tudo o que ele lhe dizia. Que idiota ela havia sido! Suas faces estavam sem cor e a moça notou:
—Está se sentindo mal? Quer sentar um pouco? Sandra pensou rápido e respondeu:
—É que eu ando com uns sintomas que parecem gravidez... de vez em quando sinto umas vertigens inesperadas, mas já estou bem. Na verdade tinha muita pressa em fugir dali.
—Fique com Deus e boa sorte para você e para as crianças.
Se afastou do local o mais rapidamente possível. Na cabeça as idéias se misturavam num verdadeiro redemoinho. Aquela mulher e sobretudo aquelas crianças (agora sem pai) eram o retrato da sua loucura e insensatez. Sandra se dava conta do tamanho da loucura que havia cometido. Havia tirado a vida de um homem por nada! Na verdade o seu crime não poderia ser classificado e nem mesmo ser considerado “um crime por amor” já que Juarez não lhe pertencia e (agora ela sabia)que entre eles não havia “amor”. Ele era por lei e por direito casado com aquela mulher que era a mãe dos seus filhos. E ela? Quem era ela na vida de Juarez? O que ela havia representado na vida dele? Ela era apenas mais uma das tantas que ele, usando de toda a sua maestria enganava. E agora ela estava ali. Uma assassina que se deixara dominar por um ciúme doentio e sem nenhuma razão de ser. Sem saber de onde, uma frase bailava em sua mente como se fosse uma espécie de oração:
“Às vezes se mata alguém por nada...”
Pensou nos próprios filhos e seu coração se apertou. E se fossem os seus filhos que ficassem privados da companhia do pai devido ao ato insensato de alguma louca enciumada? Naquele momento Sandra sentiu o verdadeiro peso dos seus atos. Quis correr para os braços de José, porém ainda estava distante de casa e José provavelmente estava no serviço.
Na sua agonia havia caminhado sem rumo durante algum tempo e agora percebia que se distanciara de casa. Estava em frente a uma pracinha e aproveitou para se sentar e descansar um pouco. Sandra sentiu as lágrimas chegando e se controlou. Não podia chorar em público. Sabia que podia estar sendo observada por alguém e não podia correr o risco de que seu crime fosse descoberto. Retomou o rumo de sua casa. Precisava se sentir segura. José ainda não havia chegado e as crianças também não estavam em casa. Sandra se sentiu feliz pela ausência dos filhos, mas queria muito que José estivesse ali do seu lado.
Deitou-se na cama e como num filme reviu toda a sua aventura com Juarez e se perguntava: Como pudera ser tão inconseqüente e leviana a ponto de não valorizar o seu marido, um homem (que só agora ela percebia) tão amigo e companheiro? Com o coração repleto de ressentimento e remorsos, Sandra adormeceu.
Neide trouxe as crianças da escola e encontrou Sandra dormindo.
—Acorda mulher! Acorda pra vida!
Sandra, ainda sonolenta recebeu com carinho o beijo dos filhos. Levantou-se e teve o cuidado de arrumar a cama com todo capricho. Depois de tomar um banho demorado, foi preparar o jantar. Queria mais do que nunca, agradar o marido. Esta noite, quando José chegasse encontraria além do seu prato preferido, a mulher apaixonada e dedicada com quem ele se casara. Neide percebeu o brilho do seu olhar e ainda brincou:
—É. Eu acho que hoje vou ter que ir para casa mais cedo! Parece que os dois pombinhos vão querer ficar sozinhos... É alguma data especial que eu estou me esquecendo?
Sandra sorriu e respondeu:
—Não, Neide. Não é nada de mais. É apenas o milagre do amor entre duas pessoas que se amam... É só isso.
Neide saiu pensativa, mas feliz. Sabia que alguma coisa havia mudado na vida de Sandra e José desde a morte de Juarez.. E havia mudado para melhor. Neide estava feliz, em ver como o casamento dos dois estava se recuperando. Quanto ao resto... Bom! O resto não importava muito, já que boatos e maledicências existem em toda a parte. Pra que estragar a vida deles com fofocas sobre o falecido? Era muito melhor deixar os mortos descansarem em paz! Se bem que ela tinha dúvida sobre o “descanso” de Juarez. Mas isso era pra Deus e não ela se preocupar.
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