sábado, 23 de outubro de 2010

A Briga dos Meus Pais_Quando o Racismo Começa em Casa


Tinha pouco mais de dois anos de idade. Era tarde da noite e não me recordo muito bem como foi que despertei. De repente me vi nos braços da minha mãe que corria em direção ao portão. Dentro de casa, o meu pai esbravejava e tomado de uma fúria que eu ainda não conhecia, atirava objetos como garrafas, pratos, copos e mais algumas tralhas na direção em que eu e minha mãe nos encontrávamos. Minha mãe, apesar do peso que carregava, esgueirava-se, ora daqui, ora dali (a escuridão a protegia) e ainda encontrava forças para atiçar ainda mais a raiva do meu pai, gritando:

—Joga mais para a direita! Essa não acertou! Agora passou raspando!...

Eu extremamente assustada com o que via chorava e pedia para que minha mãe me colocasse no chão. Nos meus dois anos e meio de idade, não entendia o que estava acontecendo e queria a todo o custo fugir dali. Minha mãe precisou me bater para que eu parasse de me mexer. Vi quando meu pai, tresloucado, pôs fogo numa pilha de pertences da minha mãe bem no meio da sala. O fogo cresceu rápido e eu senti mais medo ainda, pois meu pai estava dentro da casa. Fumaça e fagulhas começaram a sair por entre as telhas, e eu vi o rosto da minha mãe se transfigurar. O riso e o sarcasmo deram lugar ao desespero e ela começou a gritar desesperadamente:

—Socorro! Socorro! O homem está maluco! Está pondo fogo na casa!

O desespero no rosto da minha mãe denotava perigo. Eu me abraçava a ela e tentava esconder o rosto nos seus ombros. Não queria ver os seus olhos amedrontados. Ouvi as sirenes do carro dos bombeiros que os vizinhos haviam chamado. Vi quando eles entraram e trouxeram meu pai que estava em prantos. Aos pouco eles dominaram o incêndio e se foram. Vizinhos e curiosos se dispersaram. Eu ainda me lembro de quando entramos na casa. Os cacos e entulhos molhados e queimados jaziam na sala. Eu me dei conta de que várias fotografias, que de alguma maneira, representavam o passado de minha mãe e que antes enfeitavam o vidro da cristaleira haviam desaparecido no incêndio. Inclusive a foto do menino de cabelos loiros que a minha mãe dizia ser um dos seus filhos, já falecido. Depois fomos todos até a delegacia que por sorte ficava perto da nossa casa (aliás, passamos lá quase toda a noite). Eu dormia e acordava deitada num banco duro da delegacia, com a cabeça no colo da minha mãe. Meu pai ao que parece, prestava depoimento numa sala ao lado. O telefone preto preso à parede chamava a minha atenção e fazia com que por algumas vezes, me esquecesse do incidente. No entanto ao ouvir os gritos do delegado, e a voz surda e oprimida do meu pai, me dava conta de que o pesadelo ainda não havia terminado. O tempo passou sem que eu percebesse e logo era manhã e estávamos em casa. Só depois de alguns anos e de muitas indagações pude entender a causa daquele gesto insano do meu pai. Tudo aconteceu devido ao seu ciúme. Meu pai nunca aceitou o fato da minha mãe ter tido outro companheiro antes dele. Para piorar a situação ela trazia consigo fotos dos filhos que haviam morrido e nos momentos de discussão, gostava de atiçar o meu pai fazendo comparações entre ele que era de cor preta e o outro que era branco e Argentino e ainda se punha a reclamar da minha cor. A filha que havia puxado ao pai em tudo, até na cor! E se lamentava sempre com essas palavras:

—Meus filhos brancos Deus levou e deixou essa daí para pagar a minha língua!

Isso deixava meu pai irritado, pois minha mãe era mulata clara, quase branca e nunca disse a ele que não gostava de pretos. Só depois que eu nasci é que isso veio à tona. Sem outros argumentos ele se enfurecia e naquela noite exagerou. As brigas e discussões continuaram e agora com um agravante: não havia mais as fotos dos filhos brancos que eram o orgulho da minha mãe e ao mesmo tempo um motivo de vergonha para o meu pai. Cresci assim, discriminada dentro de casa pela minha própria mãe. O preconceito que sofri na rua doeu bem menos e me ajudou a crescer. Como águas passadas não movem moinhos, continuei minha vida e apesar das derrotas consegui ser feliz. Tive as mãos atadas pelo preconceito e pela discriminação, mas sobrevivi e hoje já não me importo quando uma ou outra pessoa tenta me diminuir por causa da minha cor, da minha idade ou da minha classe social. Sei que isso é parte da nossa cultura e tiro de letra sem me aborrecer ou me sentir ofendida. Tenho sempre em mente um provérbio que aprendi quando em criança: “Os cães ladram e caravana passa...” E vou em frente. Beijos a todos.

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