segunda-feira, 11 de outubro de 2010

De irmandade e de irmãos


Nasci em Salvador, no Estado da Bahia nos idos anos de1948. Passei os meus primeiros anos de vida me dividindo entre os bairros da Cidade Nova, Pau Miúdo, Pero Vaz e mais tarde Cosme de Farias. Cresci entre meninos e meninas que brincavam de pique (picula) pelas ruas empoeiradas e se banhavam despidos, sem culpas e sem maldade nas fontes, nos  chafarizes e bicas das redondezas muitas vezes até os onze anos de idade ou até que a puberdade apontasse. Entre deveres e obrigações se destacava o respeito e a obediência aos mais velhos, não importando a idade do mesmo. Se uma menina se casasse aos treze anos (por exemplo), já era considerada uma senhora e nós, os menores, lhe devíamos respeito e obediência tanto quanto aos velhinhos de cabeça branca.
 Naquele tempo pude conhecer e conviver com vários tipos de “irmãos”.
Havia os irmãos de sangue – filhos do mesmo pai e da mesma mãe; os irmãos da parte do pai – filhos de mães diferentes, mas com um mesmo pai; os irmãos por parte de mãe – filhos de uma mesma mãe, mas com pais diferentes; os irmãos de criação – crianças que eram criadas por famílias diferentes da sua, mas que eram tratados como filhos; os irmãos de leite (ou de aleitamento) crianças que eram amamentadas por outra mulher e que eram consideradas por elas como seus filhos e os irmãos de consideração que era uma forma de amizade muito forte entre duas crianças sem nenhum parentesco. Esses vínculos normalmente perduravam por toda a vida e muitas vezes vi pessoas idosas se referindo com carinho aos seus irmãos sendo eles de sangue ou não. O que mais achava estranho era quando uma dessas pessoas me apresentava um outro idoso como sendo o seu irmão caçula. Ficava me perguntando: Como poderia ser o caçula se já era velho? Aos dez anos fui trazida para o Rio de Janeiro e encontrei uma cidade um pouco diferente da minha terra natal. No entanto, apesar do progresso e das novidades, os costumes das pessoas eram parecidos. O respeito aos idosos  e todos os valores morais eram defendidos pela grande maioria da população. Mas os costumes foram se modificando e sem que a gente se desse conta, a “modernidade”, o “estrangeirismo” e a televisão tomou conta de tudo. Abraçou-se o que era moda em outros países num prenúncio da Globalização. O casamento aos pouco foi se modificando e a família, ou melhor: o conceito de família foi adulterado se tornando um conceito vago de união e convivência (ou será conveniência?) entre pessoas. O conceito de irmandade sofreu uma brusca mudança e hoje, irmãos e irmãs muitas vezes se transformam em estranhos - ainda que sejam irmãos de sangue! Não posso deixar de lamentar a perda desses valores. Alguns dizem que foi bom e que isso torna as pessoas mais livres, mais conscientes e mais independentes. Pela parte que me toca e por tudo que vivi até aqui, posso afirmar que antigamente era muito melhor! Saudosista? Quem? Eu? Jamais! A Internet que o diga! Sou só mais uma, na multidão de envelhecentes que assola o país tentando viver e entender a vida como ela é.

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