Nasci em Salvador, no Estado da Bahia nos idos anos de1948. Passei
os meus primeiros anos de vida me dividindo entre os bairros da Cidade Nova,
Pau Miúdo, Pero Vaz e mais tarde Cosme de Farias. Cresci entre meninos e
meninas que brincavam de pique (picula) pelas ruas empoeiradas e se banhavam despidos,
sem culpas e sem maldade nas fontes, nos chafarizes e bicas das redondezas muitas vezes
até os onze anos de idade ou até que a puberdade apontasse. Entre deveres e
obrigações se destacava o respeito e a obediência aos mais velhos, não importando
a idade do mesmo. Se uma menina se casasse aos treze anos (por exemplo), já era
considerada uma senhora e nós, os menores, lhe devíamos respeito e obediência
tanto quanto aos velhinhos de cabeça branca.
Naquele tempo pude
conhecer e conviver com vários tipos de “irmãos”.
Havia os irmãos de sangue – filhos do mesmo pai e da mesma
mãe; os irmãos da parte do pai – filhos de mães diferentes, mas com um mesmo
pai; os irmãos por parte de mãe – filhos de uma mesma mãe, mas com pais diferentes;
os irmãos de criação – crianças que eram criadas por famílias diferentes da
sua, mas que eram tratados como filhos; os irmãos de leite (ou de aleitamento)
crianças que eram amamentadas por outra mulher e que eram consideradas por elas
como seus filhos e os irmãos de consideração que era uma forma de amizade muito
forte entre duas crianças sem nenhum parentesco. Esses vínculos normalmente
perduravam por toda a vida e muitas vezes vi pessoas idosas se referindo com
carinho aos seus irmãos sendo eles de sangue ou não. O que mais achava estranho
era quando uma dessas pessoas me apresentava um outro idoso como sendo o seu
irmão caçula. Ficava me perguntando: Como poderia ser o caçula se já era velho?
Aos dez anos fui trazida para o Rio de Janeiro e encontrei uma cidade um pouco diferente
da minha terra natal. No entanto, apesar do progresso e das novidades, os
costumes das pessoas eram parecidos. O respeito aos idosos e todos os valores morais eram defendidos
pela grande maioria da população. Mas os costumes foram se modificando e sem
que a gente se desse conta, a “modernidade”, o “estrangeirismo” e a televisão tomou
conta de tudo. Abraçou-se o que era moda em outros países num prenúncio da
Globalização. O casamento aos pouco foi se modificando e a família, ou melhor: o
conceito de família foi adulterado se tornando um conceito vago de união e convivência
(ou será conveniência?) entre pessoas. O conceito de irmandade sofreu uma
brusca mudança e hoje, irmãos e irmãs muitas vezes se transformam em estranhos
- ainda que sejam irmãos de sangue! Não posso deixar de lamentar a perda desses
valores. Alguns dizem que foi bom e que isso torna as pessoas mais livres, mais
conscientes e mais independentes. Pela parte que me toca e por tudo que vivi até
aqui, posso afirmar que antigamente era muito melhor! Saudosista? Quem? Eu? Jamais!
A Internet que o diga! Sou só mais uma, na multidão de envelhecentes que assola
o país tentando viver e entender a vida como ela é.
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