Meu nome é Mary Jane e o que vou contar faz parte do meu passado já um tanto distante. Éramos nove pessoas. Eu e minha irmã Esther, as quatro crianças e dois rapazes que se agregaram a nossa família. Morávamos numa fazenda nos Estados Unidos. Eu estava com vinte e dois anos e Esther (minha irmã) com vinte e quatro, porém aparentávamos bem mais idade. As quatro crianças a que me referi eram nossos filhos e o pai delas era o nosso próprio pai, um homem frio e violento que também era o dono da fazenda. Ele era filho de imigrantes espanhóis e vivia na América do Norte desde criança. Era um homem moreno, alto, forte e tinha uma barriga volumosa. Falava pouco e quando se dirigia a uma de nós era sempre aos berros. Seu sorriso era sempre um mau presságio. Sabíamos que quando sorria, com certeza tinha alguma coisa em mente.
O menino mais novo Juan, tinha quase três anos e a menina mais velha, Janice já estava com doze anos. Uma das meninas, Carla, tinha seis anos e a outra, Joyce estava com sete. Eu e Esther éramos muito ligadas. O sofrimento nos unira e não fazíamos diferenças entre os nossos filhos que eram também nossos irmãos.
Nós éramos amantes do nosso pai desde a nossa adolescência. Ou melhor: desde que a nossa mãe morrera. Eu estava então com doze anos e a minha irmã com catorze. Desde então ele se apossara da nossa vida e além de nos violentar, nos proibia de sair. Não tínhamos permissão nem mesmo para ir á Igreja. Com a morte de nossa mãe e as grosserias do nosso pai as pessoas do lugar se afastaram e nós e passamos a viver completamente isoladas.
Pela força e através de ameaças ele havia nos tornado suas amantes e tanto eu como minha irmã nos tornamos reféns de seus instintos. Sem nenhuma experiência eu ajudei no parto de Esther. Ele ficou do lado de fora do quarto e gritava me dizendo tudo o que eu devia fazer.
—Sua mãe teve vocês duas sozinha em casa e eu ajudei. Sei muito bem com se tira uma criança de dentro de uma mulher!
Quando, meses depois chegou a minha vez, Esther me ajudou.
As crianças nasceram e estavam crescendo sem nenhum convívio com outras pessoas. Sofríamos toda espécie de abusos e éramos espancadas por qualquer motivo. As crianças sentiam medo dele e viviam a maior parte do tempo escondidas dentro do quarto.
Para melhor protegê-los nós duas ocupávamos o mesmo quarto no andar de cima e dormíamos todos juntos. Quando as crianças indagavam o porquê de não sairmos, eu dizia para elas que a nossa casa “era um grande armário de guardar pessoas”.
Janice estava ficando mocinha e por duas ou três vezes, eu o peguei olhando para ela com maldade. Numa dessas vezes ele chegou a segurar a mão dela entre as suas enquanto exibia o mesmo sorriso sórdido que costumava nos “ofertar” quando desejava uma de nós. Nenhum de nós o chamava de pai ou de avô. Ele preferia que o chamássemos pelo nome e era assim que nos referíamos a ele: Sr. Gonzalez.
Há tempos apareceram por aqui dois rapazes, que diziam precisar de ajuda. Eram jovens e o Sr. Gonzalez logo imaginou que talvez estivessem fugindo da polícia. Então, se aproveitando da situação dos dois, lhes ofereceu emprego em troca de casa e comida. Eles aceitaram e ajudavam no serviço. John cuidava do pasto e Neil ajudava nos trabalhos mais pesados dentro da casa. Eles eram tratados da mesma maneira que nós. Não tinham nenhuma regalia e eram constantemente humilhados. Ainda assim eles eram como cães de guarda e obedeciam cegamente ao Sr. Gonzalez. Com o tempo nos tornamos amigos. Eles acompanharam as nossas duas últimas gravidez e não fizeram nenhuma pergunta. Sabiam perfeitamente quem era o pai daquelas crianças. Neil ajudou Esther durante o parto do menino. Era prestativo e não fazia comentários sobre o que via.
Com eles por perto, nós nos sentíamos um pouco mais protegidas. Era uma proteção imaginária já que tanto eles como nós morríamos de medo do Sr. Gonzalez.
Agora que Janice estava se tornando uma mocinha, tudo estava querendo se repetir e nós não iríamos permitir. Então resolvemos fugir. Mas fugir era algo quase impensável. E para onde fugiríamos? Resolvemos nos arriscar a pedir ajuda aos rapazes. Achávamos que não aceitariam nos ajudar, já que, apesar de tudo, tinham o Sr. Gonzalez como seu protetor. Ainda assim resolvemos tentar. Eu fiquei encarregada de falar com Neil e Esther de falar com John. Para nosso espanto eles não só concordaram, como resolveram que iriam conosco. Disseram que também estavam cansados daquela vida.
Combinamos que Neil ficaria incumbido de preparar a carroça e deixar num ponto da cerca onde o acesso fosse fácil tanto para nós quanto para as crianças. Enquanto isso, John ficaria com o Sr. Gonzalez dentro da casa para distraí-lo e assim que todos estivessem na carroça ele viria ao nosso encontro.
Com o coração aos pulos arrumamos os nossos poucos pertences e os amarramos dentro de algumas colchas e lençóis. Precisávamos fazer tudo com muita discrição para não levantar nenhuma suspeita. Nos arrastávamos como sombra pela casa sempre vigiando para ver se ele (o Sr. Gonzáles) estava por perto e só quando não o víamos é que passávamos com algum volume.
Quando tudo estava pronto demos o sinal para Neil. Escolhemos partir antes do sol nascer. Minha irmã Esther e John levaram as trouxas e colocaram tudo na carroça. Eu fiquei encarregada de acalmar as crianças para impedir que elas fizessem barulho. O menino menor, Juan estava sonolento não entendia direito porque sair da cama se ainda não estava dia claro. Queria saber do sol. Fiquei com ele no colo cochichando coisas boas para que ele entendesse que precisava ficar em silêncio. Por fim minha irmã e Neil chegaram para ajudar a levar as crianças. Pulamos a janela da cozinha e saímos rápida e silenciosamente. Nos acomodamos na carroça olhando ansiosamente em direção a casa para ver se Neil já estava vindo. Eu estava apavorada. E se alguma coisa desse errado? De repente avistamos o Neil. Finalmente ele vinha ao nosso encontro. Estranhei a sua calma. Ele estava andando muito devagar e ficamos preocupados. Os cavalos estavam um pouco inquietos e eu temia que começassem a relinchar e o Sr. Gonzalez ouvisse. Neil se aproximou e disse que havia mudado de idéia. Não iria mais partir conosco. Ficamos sem entender. Porque essa decisão? E por que só agora?
Então calmamente ele nos explicou que seus planos haviam mudado devido a uma obra da natureza. Falou que há três dias o Sr. Gonzalez havia sofrido um derrame cerebral durante a noite. Neil o havia socorrido e ajudado durante esse processo, mas ele não queria que Neil nos contasse. Queria primeiro se acostumar com a idéia. Estava cego das duas vistas e com um dos lado do corpo paralizado. Prometeu a Neil que se cuidasse dele direitinho, teria como premio uma parte na fazenda quando ele morresse.
Enquanto Neil falava, nós olhávamos uns para os outros tentando entender. De repente as coisas se tornaram claras. Naqueles últimos dias, nós estávamos tão preocupados com a nossa fuga que nem notamos até agradecemos pela mudança de comportamento do Sr. Gonzalez. Ele estava sempre no quarto e chamando por Neil. Nos lembramos que há dois dias o Sr. Gonzalez não caminhava pela casa e isso foi primordial para que o nosso plano desse certo.
Depois dessa informação sobre o seu estado de saúde, continuamos a nos olhar sem querer acreditar.
Ficamos por um tempo ali parados vendo a nossa fuga se desvanecer. Se o Sr. Gonzalez estava realmente cego e
precisando de alguém para cuidar dele era sinal de que as coisas haviam mudado e que talvez ele já não oferecesse perigo para nós.
Por um momento meus olhos se encheram de lágrimas e apertei o meu filho Juan contra o peito. Janice me olhou como se indagasse: “E então? Vamos ou não vamos fugir?” Ester, apesar de ser a mais velha sempre esperava de mim a última resposta. Estava com a cabeça baixa e percebi que também chorava.
Neil compreendeu a nossa indecisão e disse que era para pensarmos bem. Se afastou dali nos desejando boa sorte fosse qual fosse a decisão que tomássemos.
O sol começava a despontar e os seus fracos raios iluminavam uma manhã diferente. Sentada na carroça e já sem nenhuma pressa eu procurava organizar as idéias.
Durante tantos anos nós sonháramos com uma fuga que seria para nós a libertação do jugo que o Sr. Gonzalez havia nos imposto e de repente essa liberdade estava ali à nossa frente. Viera até nós como um desígnio dos céus. Um misto de alegria e de tristeza tomou conta de mim. Olhei para Esther e sorri. Estava ali a nossa chance de voltarmos a ser uma família. Acho que ela entendeu o meu pensamento porque sorriu também. John nos olhava de soslaio. Talvez ainda esperasse pela ordem de partida, mas ao ver a nossa cara de contentamento, tratou de nos ajudar a descer. Sabia que íamos voltar para casa. As crianças estavam sem entender e tanto eu como Esther tentávamos passar para eles o nosso estado de espírito atual que era de alegria e total confiança no futuro. Aos pouco fomos levando nossas tralhas para dentro de casa. Com a doença do Sr. Gonzalez as crianças poderiam dali por diante, circular pela casa sem medo. O dia nos encontrou com o coração ardendo de fé na vida e em nós mesmos.
Neil nos recebeu com alegria. Ele e John nunca haviam se separado e ele estava feliz pela decisão que havíamos tomado.
John foi o primeiro a falar e o fez de uma maneira soberba:
— Felizes pelo dia de hoje e quem sabe? Feliz para todo o sempre?
Todos sorrimos. As crianças estavam pela primeira vez na vida fazendo algazarra e preenchendo a casa com suas vozes. Nossa mãe, com certeza se estivesse conosco estaria feliz.
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