A imprensa estava toda à postos. O grande homem público Richard Novaes estava depondo e assim que o seu depoimento terminasse, ele sairia e todos (inclusive eu) queriam ter o privilégio de ouvir de sua boca alguma declaração, além de tirar algumas fotografias. A criança (que era o pivô daquela história) estava presente e bem protegida das vistas dos curiosos ao lado dos seus pais biológicos e certamente guardada por algum Conselheiro. Tutelar. Também estavam ali o advogado de defesa dos pais do menino e aquele era o depoimento mais importante e mais esperado daquele caso. Depois que Richard fosse ouvido o processo ganharia outro rumo. Dizia-se à boca pequena que o juiz estava propenso a lhe conceder terminantemente a guarda do menino. No entanto, havia ainda a possibilidade (mesmo que remota) da criança ser entregue de uma vez por todas aos pais.
O caso de Richard se tornara público quando o pai do menino fez uma denúncia contra o ele, o ilustre Promotor Richard Novaes. Contou que trabalhava como porteiro no edifício onde Richard residia e que o mesmo costumava puxar conversa com ele do tipo: “Tudo bem com o senhor? E a família?” Nesses momentos ele se sentindo importante em ser notado por um homem tão importante, resumia em poucas palavras a situação em casa. Falava sobre a mulher e até lhe contava sobre as pequenas desavenças que tinham de vez em quando. A mulher estava grávida e o seu temperamento mudava com muita facilidade. Quando o seu filho nasceu ele comentou com o Promotor. Fez questão de enfatizar a cor branca do filho e os cabelos loiros que o menino herdara da mãe. Por ser de origem negra e de pele escura, o fato do filho ter nascido branco era para ele algo com que falava com orgulho. Ficou surpreso quando o Promotor lhe disse que gostaria de ver o seu filho e muito mais surpreso ainda quando Richard se ofereceu para ser o padrinho da criança. Depois de conversar com a mulher, Romualdo aceitou a oferta e dali em diante o Promotor passou a dar as cartas na vida dele, na vida da sua esposa e também na vida do menino. Dizia a eles tudo o que fazer no que se referia a criança. Até mesmo o nome do menino foi ele quem escolheu. Aliás “sugeriu” que o menino deveria se chamar Ricardo, que era a versão em português de Richard. Romualdo já havia escolhido para o filho o nome de Ernesto (que era o nome do seu falecido pai) mas achou que não seria bom contrariar o Promotor e concordou. O batizado de Ricardo foi numa manhã de domingo na igreja mais chique do bairro. O padrinho chegou num carro importado e fez questão que a cerimônia se desenrolasse o mais rápido possível, pois tinha um compromisso de última hora. Apesar de tudo, a mãe do menino estava feliz. Se sentia importante por ter como “compadre” um homem como o Promotor Richard. As opiniões e orientações e interações de Richard na vida do casal se tornaram tão freqüentes que aos pouco o jogo mudou e era ele, o Promotor, quem dava as ordens: “Não! Não façam isso! Isso não é bom para o menino”, ou então: “Sim, sim, isso é bom para a criança, etc.
Richard vivia sozinho. Não tinha filhos, estava separado da esposa e apenas os criados lhe faziam companhia. Em geral seus empregados eram diaristas ou temporários. Richard não gostava de se prender a ninguém. Assim podia curtir com mais prazer a sua liberdade.
Para que o menino pudesse passar dias em sua casa o Promotor contratou uma babá. A visita do menino acontecia com freqüência e sempre com o consentimento dos pais. Quando retornava para a casa de origem o menino ia coberto de brinquedos. Além de tudo o Promotor “sutilmente” ofertava ao pai uma pequena ajuda em dinheiro: “È para que não falte nada ao Ricardo.” Para Romualdo não se sentir constrangido Richard passou a pedir que Romualdo assinasse vez por outra uma promissória com a quantia que estava doando. Procurava deixar claro que isso era apenas uma pequena formalidade e que as promissórias jamais seriam cobradas.“É para o compadre se sentir melhor...” e enfatizava: “Com dinheiro a gente não deve brincar!”
Quando o menino completou três anos o padrinho pediu ao pai para deixar a criança passar uns dias com ele numa casa de veraneio que possuía, e o casal mesmo sem saber onde ficava essa tal casa, mais uma vez concordou. No dia combinado o motorista pegou a criança cedo como de costume. Segundo ele o Promotor não pudera vir por estar numa reunião. Era uma quinta feira, véspera de um feriadão e o menino só retornaria no domingo. Os pais se despediram do menino sem saber que nunca mais veriam seu filho. No prédio, Romualdo trabalhava tranqüilo. Várias famílias haviam viajado e tudo estava na mais perfeita paz, até que um dos vizinhos ao passar por ele, perguntou: “O senhor por acaso sabe para onde o seu compadre, o Promotor Richard se mudou?” Romualdo pensou não ter ouvido direito e pediu ao vizinho que repetisse a pergunta. Só então se deu conta do peso daquela informação. Sentiu um começo de pânico, mas pensou: “Calma Romualdo. Se o Compadre se mudou com certeza vai entrar em contato com você para lhe informar. Quem sabe até já entrou em contato com Maria?”
O dia se tornou pesado e difícil de passar. Ao chegar em casa Romualdo esperou que Maria lhe desse a notícia que confirmaria a sua idéia inicial. Porém o tempo passava e nada. Maria falava sobre tudo, menos sobre a mudança do compadre. Romualdo resolveu continuar em silêncio. Não queria preocupar a mulher e estava cansado. “Quem sabe amanhã ele não entra em contato com a gente e tudo se esclarece?” Dormiu um sono inquieto com muitas voltas na cama e idas à geladeira. Estava ansioso e mal se continha em esperar o novo dia chegar. O dia chegou e a noite também sem que ele tivesse notícias do Promotor. Só restava aguardar o domingo. E Romualdo, apesar da insegurança e do mau presságio, aguardou. No domingo tomou o café da manhã ouvindo os planos da mulher em relação a chegada de Ricardo. “Sabe que ele vai vir cheio de histórias pra contar, né?” Romualdo saiu sem responder. Precisava trabalhar. No prédio alguns dos vizinhos já haviam retornado e quando passavam por ele sempre diziam algo sobre a mudança inesperada do Promotor. Romualdo sorria engasgado. Estava com um enorme nó na garganta e se esforçava para ser gentil com todos. Deixou o emprego no horário costumeiro e se dirigiu para casa a passos lentos. Se as coisas fossem do jeito que ele estava pensando, estaria enrascado. Como contar a Maria? Tentou se manter calmo e ao chegar em casa, fingindo despreocupação foi logo dizendo: “Cadê o moleque do papai?” Maria respondeu em tom apreensivo: “Pois é homem. Até agora não chegaram. Será que aconteceu alguma coisa. Algum acidente na estrada ou coisa parecida? E você? Lá no prédio ninguém falou nada?”
Romualdo procurou ajuda nos braços do sofá. Afundou a cabeça nos ombros e começou a chorar. Maria não entendia, ou melhor, não queria entender. Começou a gritar com Romualdo: “O que aconteceu com nosso filho? Fala homem pelo amor de Deus? Ele morreu? È isso que você não quer me contar? Fala!”
Maria gritava e batia em Romualdo. Estava totalmente descontrolada. Romualdo precisou usar a força para que ela lhe ouvisse. Com a voz embargada ele lhe contou sobre a mudança do compadre e a desconfiança que tinha de que não veriam mais o menino. Maria não queria ouvir. “Não! Não! Isso não era possível! Ninguém ia fazer isso com o seu menino! Ninguém!”
A partir daí a vida deles mudou radicalmente. De tanto importunar os vizinhos do Promotor no prédio em que trabalhava, e de faltar ao trabalho com desculpa de estar procurando o filho, Romualdo foi demitido. Maria por sua vez tentava obter ajuda na Associação de Moradores do bairro em que morava, porém poucos queriam ouvir sua história. Muitas vezes ao invés de consolo ela ouvia recriminações: “Quem mandou dar o filho pra rico batizar? Agora agüente. Pensa que vai se dá bem e se ferra. É bem feito!”
Romualdo sem trabalho e sem noção de direitos vagava sem rumo ora aqui, ora acolá em busca de alguém que lhe dissesse o que fazer. Um dia numa fila em busca de emprego conheceu um rapaz que era irmão de um redator de um desses jornalecos populares. O rapaz lhe orientou no sentido de procurar o Conselho Tutelar da região onde morava, mas Romualdo tinha medo. “Como procurar a justiça para falar contra um dos seus membros tão importante? E dizer que o menino havia saído de casa com o seu consentimento?”
Preferiu uma segunda opção que era contar a sua história diretamente ao redator do jornal. Caso ele se interessasse, a notícia se espalharia e talvez assim Romualdo tivesse algum retorno. Deu a Romualdo um cartão com o nome e o telefone do escritório do irmão e depois de dois dias de indecisão Romualdo resolveu procurar o mesmo. O rapaz era novo na profissão e se sensibilizou com o sofrimento de Romualdo. Sabia perfeitamente a pressão que teria de agüentar se resolvesse ajudar aquele homem e publicar sua história. No entanto, seu lado solidário falou mais alto e ele se tornou o alicerce de Romualdo na busca que fazia para descobrir o paradeiro do seu filho. A notícia logo tomou vulto e todos os jornais falavam sobre o caso que achavam escabroso. Romualdo foi tachado de louco, oportunista e caluniador. Recebeu ameaças diversas, mas insistia em contar a sua versão da história. Para piorar a situação soube que o promotor Richard Novaes estava fora do país e não se tinha notícias dele. Poucos meses depois o caso já havia caído no esquecimento. A busca de Romualdo durou cerca de dois anos. De repente tudo voltou à tona. Através de uma denúncia anônima o paradeiro do Promotor foi descoberto. Ele não estava fora do país, mas residindo numa pequena ilha no nordeste, afastado de tudo e de todos. A denúncia pôs lenha na fogueira e o caso se reacendeu. Richard foi encontrado e intimado a depor. Se dizia inocente e não se negou a prestar depoimento. Tinha (segundo dizia) em suas mãos um documento com a assinatura de Romualdo permitindo que Ricardo vivesse em companhia do padrinho por tempo indeterminado. Documento esse que foi anexado ao processo e que seria ferozmente analisado por peritos para que fosse atestada a sua autenticidade. A versão de Romualdo sobre o caso era tênue demais comparada com as provas apresentadas por Richard. A justiça foi rápida e enquanto esperava-se pelo veredicto final, a criança foi devolvida ao convívio dos pais. Infelizmente Romualdo não conseguia êxito na sua defesa. A Justiça e a mídia os tachavam (tanto ele como a esposa) de monstros oportunistas. Tudo o que dizia se voltava contra ele e sua esposa. “Como puderam permitir que o filho fosse usado em causa própria?” Richard estava radiante. De réu passara a vítima e ainda podia requerer a posse da criança. Foi então que ele entrou com uma ação onde pedia ao Juiz para adotar o menino, afinal, preenchia todos os requisitos necessários.
Enquanto isso Ricardo e os pais tentavam da melhor maneira possível conviver em harmonia. O menino, já com cinco anos e acostumado a ter tudo do bom e do melhor não se adaptou a vida que os pais levavam. Segundo ele a casa em que moravam era pequena e feia e a vida ao lado dos seus pais era ruim. Queria ter o pai Richard de volta. Enquanto a papelada rolava na justiça. Richard (por ser um grande conhecedor da lei e dos seus meandros) se armava de todos os recursos para ter o seu pedido de adoção aceito pelo Juiz. Nas declarações que dava à imprensa sempre enfatizava o sofrimento pelo qual a criança estava passando e continuava afirmando ser verdadeiro o documento de posse assinado por Romualdo. Entre provas e contra-provas o julgamento estava chegando ao fim e nós, repórteres ávidos por notícias, ali estávamos à espera de uma solução para o caso, solução essa que provavelmente estava preste a acontecer. Enfim o Promotor saiu. Usava como sempre o seu sobretudo estilo inglês e andava com passos firmes e seguros. Enquanto os repórteres se aglomeravam tentando obter o melhor ângulo para um clipe e esticavam desajeitadamente as mãos com os seus respectivos microfones para captar alguma declaração, ele se virou, deu alguns passos em direção a criança, pegou o menino pela mão e saiu em grande estilo enquanto acenava para a imprensa. Como declaração disse apenas:
—Esta era uma causa ganha!
O menino ao se sentir seguro pela mão do Promotor, abriu um largo e radiante sorriso de contentamento e seguiu ao seu lado. Assim como o seu pai quase adotivo, olhava para os repórteres com um semblante de total felicidade. Do outro lado e bem afastados estavam os pais biológicos de Ricardo acompanhados por um Conselheiro e pelo Advogado de Defesa de ambos. No olhar da mãe a dor e a desesperança de quem acaba de perder um tesouro. Com um terno e forte abraço Romualdo tentava ampará-la enquanto seguiam para o carro que deveria ser do advogado e que com certeza os levaria de volta para casa.
Tudo parecia estar terminado, no entanto o meu olhar atento havia captado algo no sorriso daquele menino que talvez tenha passado desapercebido aos meus colegas. Ele já era presa do Promotor por seu próprio consentimento e nada do que dissessem ou fizessem mudaria esse quadro.
Isto, num tempo de guerras e caos era algo para ser pensado. Até onde aquele homem influenciara aquele menino e quais seriam os seus motivos reais naquela relação? Ele era um homem quase quarentão e a pedofilia andava muito em voga. Era mais uma questão que ficaria sem resposta. O homem rico e poderoso que se apossa de uma criança inocente e “compra” o seu afeto com brinquedos e bens de consumo. É provável que se os verdadeiros pais ganhassem esta causa teriam ao seu lado, não um filho, mas um quase inimigo que na primeira oportunidade iria ao encontro daquele homem que o havia seduzido.
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