Aos dezessete anos, engravidei antes de me casar. Não podia deixar a gravidez evoluir. A gravidez acabaria de uma vez com o meu sonho de me tornar uma Auxiliar de Enfermagem. era um sonho pequeno, mas naquele momento era a minha única oportunidade de melhorar de vida. Minha situação era delicada e tentava de tudo para tirar o neném. Uma amiga de curso me aconselhou a tomar um vidro de um remédio muito usado pelas mulheres da época, chamado Regulador Xavier. Mas teria que ser tomado quente e de uma só vez. Assim fiz. Sabia que seria perigoso, porém no desespero em que me encontrava, não hesitei. comprei o remédio, coloquei numa panelinha para que fervesse, esperei esfriar e bebi tudo, como me indicaram. lavei a panelinha (para que minha mãe não notasse nada de diferente na cozinha) e deitei-me para esperar que o remédio fizesse efeito. Meu coração começou a bater acelerado ao mesmo tempo em que ia se tornando mais fraco. Fui ficando sem forças. Quis gritar e não consegui. Todos os meus músculos estavam entorpecidos. Com a respiração difícil e o corpo totalmente paralisado, eu de repente me dei conta que não estava mais na minha casa, mas deitada numa cama de hospital. Parecia ser um hospital antigo. Notei pela cor já um tanto amarelada dos azulejos que recobriam as paredes, e pelo tipo de desenho do piso. Havia dois médicos na sala em que eu estava. Não era uma enfermaria. Se parecia mais com uma sala de cirurgia, pois havia um refletor bem acima da cama onde eu estava. Eu não entendia as palavras que trocavam entre si. Mas sabia que falavam sobre mim. Eles estavam de costas para mim e às vezes um deles se virava para me observar. Eu me sentia cansada. Não sabia onde estava nem conhecia aquele lugar. Queria sentir a presença da minha mãe. Com um pouco de esforço me virei para o outro lado da cama na tentativa de me desligar um pouco da vista dos dois médicos e me assustei de verdade. Esbarrei na parede da sala onde eu dormia! Do lado esquerdo da cama estava tudo como antes. Eu estava na minha cama e na minha casa. Minha mãe costurava como de costume, em frente à janela e ouvia rádio. Bem devagar, fui virando a cabeça para o lado da cama que estava encostada a parede. Continuei a ver a sala do hospital e os médicos que me observavam e continuavam a conversar. Voltei outra vez a cabeça para o lado e minha mãe estava lá. E ela estava até cantando uma música. Alguma coisa estava errada. Se eu realmente estava na minha cama, ali do meu lado direito deveria haver uma parede e jamais uma enfermaria. E é claro que eu só poderia tirar essa dúvida se me chegasse bem para o canto da cama e me encostasse na parede. Com bastante cuidado fui me chegando para o outro lado. Os médicos continuavam a conversar e quase não olhavam para mim. Quando achei que havia espaço para sentir a parede que deveria estar ali, joguei o corpo e o susto foi enorme. A sensação de queda foi tão real que eu quase desmaiei. Olhei para baixo, e vi os pisos do chão do hospital. A cama era alta e se eu caísse com certeza iria me machucar. De repente o meu corpo esbarrou em algo sólido e frio e a cujo contato eu já estava habituada. A parede estava ali para me proteger. Me colei a parede e em pensamentos agradeci à Deus a oportunidade de ainda estar ali. Fechei os olhos e chorei em silêncio. Fiquei assim por um bom tempo. Minha mãe pensava que eu estivesse dormindo e não me incomodou. Ela nunca soube do risco que corri, nem o que eu havia feito. E eu nunca entendi direito, o que realmente aconteceu comigo naquele dia. A vida do meu bebê foi preservada e eu tive uma menina linda e saudável que apesar das dificuldades me deu muita alegria.
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