sábado, 21 de novembro de 2009

Dia da Consciência Negra (ou do negro)

Ontem, Dia da Consciência Negra foi feriado por aqui. Todos os anos, devido a esse fato, vários eventos são elaborados e em quase todos os lugares se encontra diversão fácil e de excelente qualidade, todas elas direcionadas para o público afro descendente. É claro que a intenção maior é conscientizar a população negra sobre a história e os costumes de sua etnia e dar a eles a ilusão de que são valorizados pela sociedade. Durante os dias que antecedem ao feriado, a televisão exibe comerciais sobre o assunto e algumas vezes inclui em sua programação peças ou documentários voltados ao mesmo tema. Dessa vez, como sempre eu estava ligada na TV já que a saúde, ou melhor: a falta dela me obriga a ficar em casa e pude me deliciar com uma reportagem de alto nível exibida pela TVE Brasil sobre o Continente Africano, alguns dos seus povos e a analogia que existe entre os costumes e a vida dos negros daqui com os costumes e os negros de lá. A reportagem inicia falando dos Pgmeus (povo discriminado tanto pelos brancos como pelos negros de outras etnias pela sua estatura). Enquanto assistia e ouvia a fala e os comentários da repórter, fui me reportando a velhas falas e imagens da minha infância, onde o negro era sempre visto e tido como um ser inferior e de inteligência duvidosa. De repente me dei conta que, assim como a maioria dos negros do Brasil, não tenho identidade africana e como afro-descendente a minha memória é memória brasileira carregada de exclusão e preconceito. Sou neta de um escravo africano e nada sei de sua vida ou da sua história fora do Brasil. Como lembrança trago na certidão de nascimento o nome que ele herdou do seu Senhor: André Avelino dos Santos e também que vivia na cidade de Penedo, no Estado de Alagoas. E com tristeza descobri que a minha história para por aí. Não sei quem foram meus ancestrais, ou de que parte da África vieram. Qual o tipo de bagagem cultural que trouxeram ou coisa que o valha. Da família da minha mãe eu sei bastante. Meu avô materno era português, comerciante, viveu em Santo Amaro da Purificação na Bahia e até hoje eu tenho contato com primos e outros parentes. Mas a minha raiz africana, ficou relegada ao esquecimento. Meu pai nada sabia da vida do meu avô e nunca deve ter se importado com isso, já que não é costume entre os negros falar de “imigração” pois eles vieram para cá sem escolha e contra a vontade. A minha pele negra diz que sou afro-descendente, mas isso é muito pouco para que eu viva a minha negritude em toda a sua plenitude. Sem identidade, como posso sentir orgulho de mim mesma e lutar pelos meus direitos, da maneira que tentam me incutir? No dia da Consciência Negra, descobri que a minha consciência de negritude é muito fraca e é por isso que me tornei o que sou. Um barco à deriva no mar do esquecimento para onde fui levada, assim como meus irmãos de cor. Lutar contra isso é difícil. Afinal contra o que mesmo eu devo lutar? Contra o preconceito racial? Como assim, se dizem que não há raças? Contra a exclusão social? Como, se sou afro-descendente e neta de escravos? Vocês hão de convir que todo o descendente herda alguma coisa dos seus progenitores, seja de ordem material ou genético, sendo assim... Do meu avô escravo devo ter herdado a pobreza e a resignação. Só assim se explica todos esses anos de exclusão e sofrimento. Chorei durante toda a reportagem. Me vi ali nos rostos daquelas mulheres negras e primitivas que levam suas vidas afastadas da sociedade contemporânea, com todos os seus parcos sonhos se resumindo quase sempre a um homem, um pouco de água limpa, e um pouco de dança para sufocar a dor. Querer mais do que isso é querer demais. O carnaval aqui do outro lado do Atlântico, nos dá a mesma sensação. É ali nos sambódromos da vida que deixamos de lado a nossa insignificância e nos travestimos de reis, rainhas e princesas e anestesiamos a alma para dar continuidade à vida nesta terra onde viemos parar e que teima em nos desamparar.
Salve o Dia da Consciência Negra! E salve os negros que de sua história conseguem ter consciência.

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