
Os pés descalços queimavam sobre o chão ardente do meio dia, mas a menina prosseguia. Precisava chegar ao seu destino e se parasse em alguma sombra para descansar, se atrasaria ainda mais. E tudo o que ela queria era não se atrasar... a casa da avó emprestada ainda estava distante e ela ansiava por um pouco de água fresca e uma porção qualquer de alimento. Andando com os pés em concha (para aliviar um pouco o ardor) ela seesforçava para alcançar o mais rápido a sua meta. Ao dobrar a esquina avistou a casa da avó e se regozijou. Estava chegando! Só que esse era o pedaço mais difícil, pois a rua onde a avó morava era uma rua com calçamento de paralelepípedo e a quentura do chão era muito maior. Mesmo assim ela continuou, atéque enfim chegou à porta da casa da avó. A casa era antiga e beirava a rua. Tinha uma porta dividida ao meio e uma pequena janela onde a avó se debruçava para olhar os passantes. Como era hora de almoço a avó estava na cozinha e a menina, quase pulando nos dois pés, teve que gritar da janela para ser ouvida. A avó se apressou em abrir a porta. Ao ver que a neta estava descalça, suja e descabelada, se assustou...
—Ô menina? O que éisso? De onde você está vindo? Cadê sua mae?
A menina estava ofegante e com sede, por isso ao invés de responder, pediu água. A avó lhe ofereceu um copo de água bem cheio e esperou pelas respostas.
Assim que terminou de beber a água, a menina falou:
—Pois é vó! Hoje eu acordei bem cedinho e estava com muitas saudades de você. Queria pedir a minha mãe para me trazer aqui para lhe ver, mas sabia que ela não podia. Ela está terminando um vestido de festa para entregar hoje à noite! Então eu esperei ela se distrair e resolvi vir sozinha. Saí de casa correndo, antes de tomar café! Se eu fosse trocar de roupa e colocar um calçado ela iria ver e não ia deixar eu sair... e eu queria tanto ver você!
A avó abraçou a neta e se comoveu. Mandou que a menina fosse lavar as mãos e colocou um prato de comida para que a neta se alimentasse. Enquanto a menina comia a avó pensava com os seus botões na distância que aquela menina percorrera para ir do bairro onde morava até o bairro onde ela (a avó)residia. Pelos cálculos a a menina estava andando há mais de cinco horas. Era uma difícil caminhada por dentro do mato com ladeiras íngremes e escorregadias. Sem falar nos perigos de ataques de animais e (ou) pessoas mal-intencionadas. A neta tinha apenas oito anos e já se atrevia a tanto!!! Isso era preocupante. A essa hora com certeza, a mãe deveria estar á procura da menina e jamais imaginaria que ela estivesse tão distante de casa. A menina percebendo o silêncio da avó, perguntou?
—O que foi, vó? Está zangada comigo?
A avó voltou a se comover e respondeu:
—É claro que não minha filha! Só estou preocupada com a sua mãe. Ela deve estar desesperada sem saber onde você está...
A avó, já com seus quase noventa anos não tinha como levar a menina em casa e (é claro) não poderia deixar que ela voltasse sozinha. Então, com calma, explicou a neta a situação e que naquele momento o melhor que elas tinham que fazer era esperar. Foi até a sala e trouxe embrulhadas num papel duas cocadas para a neta. Uma branca e uma preta. Sabia que a neta dorava as cocadas que fazia e isso com certeza ajudaria na passagem do tempo. Depois do almoço, ficaram as duas sentadas em frete a janela observando os passantes. A avó vez por outra fazia um comentário engraçado sobre uma ou outra pessoa e a menina soltava uma gargalhada. Quando o sol se pôs, a avó a levou para o banho. Mas avisou que ela teria que ficar com a mesma roupa, afinal não tinha roupas de criança em casa. Por volta das sete horas uma das filhas da avó chegou do trabalho e se surpreendeu com a presença menina. Ao ficar sabendo da “proeza” da menina, foi severa.
—Você merecia uma boa surra, sua negrinha! Isso é coisa que se faça? Sua mãe deve estar agoniada sem saber onde você anda! Se eu fosse mamãe teria lhe dado uma sova, quando você chegou! E agora? Amanhã eu tenho que trabalhar e não posso ir lá até onde você mora para te levar! Você vai ter que se ajeitar por aqui e tomara que sua mãe apareça para lhe buscar, sua bugrinha!
A alegria da menina acabou! Talvez pela maneira de falar da Bia, talvez por ter tomado conciência da gravidade da sua façanha.
Nesse momento alguém bateu palmas e Bia se apressou em atender. Era nada mais, nada menos que a mãe da menina, que cansada de procurar por ela em casa de vizinhos, da tia, do padrinho e deoutros parentes se lembrou dessa “avó emprestada” e resolveu ir até lá para ver se encontrava a amenina.
Depois de muitos pitos e recriminações a mãe se despediu, pegou a filha pelo braço e saiu. As duas (mãe e filha) foram para o ponto de ônibus caladas. Estava frio e a menina já estava com sono. Já passava das nove horas da noite quando chegaram. O pai e os vizinhos fizeram festa. Até que enfim!
Em casa mais recriminaçãoes e ameaças:
—Se eu souber que você deu um passo em direção á rua sem a minha permissão, você morre!!!
Nessa noite ela foi para a cama sem o leite que tanto gostava e sem o abraço do pai.
Antes de pegar no sono a lembrança da avó e da sua expressão de tristeza quando ela e a mãe saíram. É. A avó gostava dela, mas era melhor não pensar mais nisso.
O tempo passou, a menina veio morar no Rio de Janeiro e nunca mais soube da avó emprestada que se chamava Joana.
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