1961
Tenho uma história de vida repleta de sofrimento e de dificuldades e nunca consegui superar minhas dores e meus temores. Até tentei acompanhar o mundo em sua correria, porém, por mais que me esforçasse acabava sempre ficando para trás. Foi assim na escola e no trabalho. Aos treze anos e ainda sem ter concluído o antigo curso primário, resolvi trabalhar. Ansiava por me tornar independente financeiramente e pensava também em ajudar minha mãe. Todos os dia olhava os classificados dos jornais e quando tinha algum dinheiro sobrando ia atrás de algum anúncio. Com a ajuda de uma amiga consegui uma vaga de Empregada Doméstica no bairro do Méier. A casa era grande e o quarto de empregada ficava nos fundos totalmente independente e separado da casa. Eu teria que dormir sozinha. Durante todo o dia eu me esforcei para acreditar que não sentiria medo de dormir sozinha.A noite chegou e às dez horas eu fui "convidada" a me retirar. Passei quase toda a noite em claro, rolando de um lado para o outro e o dia me encontrou trêmula e sonolenta. Por sorte minha mãe apareceu para me levar de volta para casa, já que eu havia saído sem o consentimento dela. A patroa não teve como argumentar e eu caindo de sono, acompanhei minha mãe. Meses depois encontrei um anúncio de “Demonstradora”. Não pedia experiência e fiquei esperançosa. O escritório ficava em Madureira e depois da entrevista me deram uma bolsa cheia de sabonetes revestidos com uma embalagem promocional onde havia o nome de uma instituição para crianças carentes. Eu tinha que sair pelas ruas batendo de porta em porta e vender o produto. No final do dia devolveria o que não houvesse vendido e receberia o pagamento pelos que houvesse vendido. Saí pelas ruas do bairro e fui me distanciando. Andei por Osvaldo Cruz e Bento Ribeiro. Estava com pouco dinheiro e queria poupar o mesmo para a passagem dos dias seguintes. Por volta das duas horas da tarde comecei a me sentir mal e precisei parar. Sentia tonteiras e estava com fome. Entrei num barzinho, pedi um pouco de água ao homem do balcão e me sentei para descansar. O sol estava forte e o calor era grande. Com um pouco de má vontade ele me deu a água. Eu bebi e aos pouco me reanimei. Mas ainda sentia fome e resolvi fazer um lanche. Pedi um pão com mortadela e um refrigerante. Ofereci a ele um dos sabonetes, mas ele não quis comprar. Disse que não acreditava que o dinheiro fosse mesmo para a tal instituição e que aquilo era fraude. Aliás, quase todas as pessoas a quem eu oferecera o produto disseram a mesma coisa. Resolvi voltar e fiz um caminho diferente. Quem sabe agora na volta eu não dava mais sorte? Quando cheguei o escritório estava quase fechando. A moça conferiu o número dos sabonetes, me olhou com pouco caso e me disse:
—Se quiser volte amanhã. Vamos ver se você consegue sair do zero!
Cheguei em casa super cansada. Já estava anoitecendo. Contei a minha mãe sobre o emprego e ela como sempre, fez pouco caso:
—Você vai agüentar andar de porta em porta oito horas por dia? Só eu vendo pra crer! Tomara que isso não resulte em mais problemas pra mim! Ela se referia a minha saúde que sempre estava a me pregar peças e era ela quem, querendo ou não tinha que arcar com os meu remédios. Tomei um banho rápido e me deitei. Meus pés e minhas pernas doíam bastante e procurei descansar. As dores mais fortes eram no calcanhar e durante a noite precisei pedir a minha mãe para esfregar Alginex nos meus pés. Não preciso dizer que no dia seguinte não voltei ao trabalho. Me senti tão envergonhada com a minha fragilidade que nem fui buscar minha Carteira Profissional. Pedi a uma menina minha amiga para pegar, mas fiquei triste em descobrir que trabalhar não era tão fácil como eu havia imaginado.
ola querida amiga, deixa eu te contar uma coisa que aconteceu comigo...antes de tudo (boa noite)
ResponderExcluirem 1988 eu trabalhava numa firma e um amigo me indicou um banco e eu recebi uma carta para prestar uma prova para admissão, era para o Banco Frances e Brasileiro, a maioria que prestou a prova foi chamado e eu fiquei esperando, esperando, até que um candidato me chamou no canto e me disse assim, pô cara!!! eles estão te cozinhando ai por que aqui não se admitem negros. Foi o primeiro contato que tive com o racismo na minha vida profissional, mas nem isso me tirou o incentivo para continuar a caminhar...por isso e por muitas outras é que eu admiro sua força e coragem para seguir em frente...
ai vai um forte abraço de um amigo que vc nem sequer conhece
danielsamid@hotmail.com